Eu sou dois seres.
O primeiro é fruto do amor de João e Alice.
O segundo é letral:
É fruto de uma natureza que pensa por imagens,
Como diria Paul Valéry.
O primeiro está aqui de unha, roupa, chapéu
e vaidades.
O segundo está aqui em letras, sílabas, vaidades
frases.
E aceitamos que você empregue o seu amor em nós.
(Manoel de Barros. Poemas Rupestres)
1º. Ano
Outro poeta já disse: são duas línguas, uma para namorar a prima e outra para a escola. Entre uma e outra língua, dois seres se entrecruzam. E me foi tão difícil aprender…
Logo ali, depois dos trilhos da estrada de ferro, a pouco mais de quilômetro e meio de nossa casa. Era só ir da Vila Nova para a Vila Castelarin. A escola era uma construção de madeira, uma única sala, uma única professora, com dois turnos de aulas, e em cada turno quatro turmas: do 1º. ao 4º. Ano.
O quadro negro dividido em quatro partes desiguais. Muitas tarefas para os do 4º. Ano, outras bastantes para o 3º. Ano. Os do 2º. Ano tinham a vantagem de já estarem lendo, mas assim mesmo terem a atenção constante da professora, que se repartia entre nós, chorosos meninos e meninas alfabetizandos e as dúvidas daqueles já mais velhos!
Nossa tarefa primeira foi decorar o alfabeto. Identificar letra a letra e cantá-las em ordem correta. Depois, mais difícil, identificar letras espalhadas, sem ordem. Era preciso mentalmente repetir o alfabeto deixando as imagens passarem para chegar àquela letra específica ou tentar adivinhar: entre uma e outra opção, sempre ficamos à mercê da avaliação cerrada da professora e da vergonha diante dos outros colegas.
Meu primeiro castigo foi decorrência dos erros: acertava poucas e por isso fui removido de minha classe – uma carteira em que cabiam duas crianças, mas em que também poderiam sentar-se três dependendo das circunstâncias. E a circunstância era que eu deveria ficar entre duas meninas do 2º. Ano – infortúnio dos infortúnios – decorar de vez o ABC… Pior ainda: elas tinham o direito de fazer perguntas, de me fazerem identificar letras, de avaliarem e de dizerem à professora se eu sabia ou não! Tortura até o final da aula, com recreio pelo meio. Recreio? Que digo!!! muito mais dedos apontando, risinhos e troças. Depois, quando cresci, nenhuma professora me pôs de castigo entre duas meninas…
E assim se passou o tempo que me coube de primeiro ano de escolaridade: entre barrancos e tombos, o frio que em junho atravessava as alpargatas molhadas pela geada – choro e brasas do fogão da zeladora da escola trazidas para dentro da sala de aula; os suores do verão e aquela preguiça fazendo a cabeça pescar, infalivelmente quando a professora olhava.
Fim de ano: exames e repetência. Tudo porque não fiz os exames: descobriram tarde, ao final de um ano, que eu ainda não podia estar cursando o 1º. Ano, pois faria sete anos somente em dezembro. Na verdade, desde sempre eu era um aluno ‘encostado’, não matriculado. Um tempo a mais roubado à escola. Não posso dizer da vida, pois esta foi a vida. E foi tão difícil aprender!
Ano novo, primeiro ano de novo
Escola nova. Tapa-pó branco, uniforme da escola estadual. E tão pertinho de casa: somente dois quarteirões. Será que não existia antes, ou lá não me aceitaram como aluno ‘encostado’ durante o ano anterior?
A sala de aula era pequena (a escola parecia tão grande!). Éramos poucos para as medidas de hoje. As classes eram iguais: dois alunos em bancos longos, pés de ferro, madeira de lei com as marcas dos sofrimentos de anos muitos: tinta, riscos, recortes. Não lembro de nenhuma palavra escrita.
O quadro negro era só nosso, a professora era só nossa. Quem dera não fosse!!! Sobrariam tempos não vigiados. E cada um de nós tinha seu livro: “Vamos estudar”, 1º. Ano. Agora não se lia o ABC do começo ao fim… íamos por partes, as vogais primeiro, as consoantes depois, já lidas e unidas às vogais…
Com aquela sua maneira de sol entrar em casa
E com o seu olhar furado de nascentes
O menino podia ver até a cor das vogais –
como o poeta Rimbaud viu.
Contou que viu a tarde latejar de andorinhas.
E viu a garça pousada na solidão de uma pedra.
E viu outro lagarto que lambia o lado azul do
silêncio.
Depois o menino achou na beira do rio uma pedra
canora.
Ele gostava de atrelar palavras de rebanhos
diferentes
Só para causar distúrbios no idioma.
Pedra canora causa!
E um passarinho que sonhava de ser ele também
causava.
Mas ele mesmo, o menino
Se ignorava como as pedras se ignoram.
(Manoel de Barros. Canção do Ver,5)
Certamente os distúrbios que eu causava não eram de ‘atrelar palavras de rebanhos diferentes’. Distúrbios me causavam as consoantes seguidas das vogais, e mais ainda quando vinham de carreirinha formando palavras, pequenos textos. Foi difícil, tanto! Soletrei e aprendi a ler. Letra após letra formavam sílabas, sílabas após sílabas me davam palavras, palavras depois de palavras faziam frases. E a língua recomeçou a fazer sentido. Pouco, mas sentido. Não faltaram estampas, seqüências de estampas para formular histórias, campo e flores, meninas e meninos. Mas nós, mesmos, jogávamos bola no campinho perto do cemitério e nele brincávamos de esconde-esconde. Às vezes trazíamos para casa algumas sobras de túmulos abertos: cruzes, cantoneiras de caixões… e meu irmão, que ia ser médico, queria mesmo era trazer ossos que minha mãe fazia devolver na mesma hora. Na escola, soletrávamos para encontrar sentidos.
Foi muito envergonhado que o Professor Evanias me contou sua história. Hoje ele alfabetiza adultos, dá aulas em EJA, num assentamento rural na cidade de São Felix do Araguaia. Mas ele se recusa a soletrar com seus alunos. Porque quando aprendeu, tinha que soletrar. Antes de um exame semanal, passou uma tarde aprendendo de cor a soletrar SARACURA, uma das palavras da lista entregue pelo professor. Imagine só: dizer S + A: SA; R + A: RA; C + U: CU; R + A: RA. SARACURA. E dizer CU sem rir, para não apanhar. Quem não conseguiu soletrar levou 12 bolos nas palmas das mãos! E o menino Evanias, que aprendeu soletrar SARACURA, por ordem do professor teve que bater nos colegas que não a soletraram.
Passei de ano com uma prova vinda de Porto Alegre. No dia do exame, muito solenes entraram na sala a professora, o diretor e outra autoridade desconhecida. O envelope (hoje sei que lacrado) nos foi mostrado. Depois, um dos amigos (não lembro bem, se foi o Mário ou o Alberto) abriu o envelope, as provas foram distribuídas e, dado o sinal, começamos a custosamente ler e escrever. Duas horas depois, novo sinal e as provas foram recolhidas, envelopadas e enviadas para Porto Alegre para correção. Esperamos bom tempo para saber se tínhamos sido aprovados ou não. No ano seguinte, terceiro ano de minha escolaridade, lá estava eu feliz da vida na fila do 2º. Ano.
Minha ex-professora, D. Cedônia K., na frente de toda a escola em fila, turma a turma, me apontou para dizer que eu não deveria ter passado de ano e que não se responsabilizava pelo que eu sabia… Mas segui em frente, atrás da Profa. Terezinha M., por quem me apaixonei e com quem devo ter me alfabetizado o suficiente para ser escolarizado.
O tempo passa e os lugares mudam de mãos! Fiquei tão desiludido com o grande espaço que era minha escola quando entrei naquele mesmo prédio antes de sua demolição para dar lugar a uma residência e, por acaso dos acasos, casa da minha irmã e sua família. A escola, agora em prédio e terreno grandes, mudou-se para depois do cemitério…
Com que saberes enfrentar a escola?
Já crescidinhos, em algum ano, nos deram uma tarefa: entregaram-nos revistas das quais deveríamos recortar uma foto bonita, qualquer que fosse, e escrever uma história. Recortei uma foto de uma mulher sentada numa cama, colcha que, hoje sei, se chama de chenille. Ela estava alegre, com muitos presentes desembrulhados sobre a cama, ainda aparecendo papel de seda e caixas embrulhadas por serem abertas. Inventei um aniversário da minha mãe, que somente veio a ter uma festa de aniversário aos 90 anos, em 2007!
Fui reprovado na redação: escrevi sorrisos com um só R, disto me lembro. Mas, sobretudo, não descrevi o que havia sobre a cama: presente por presente, coisas para mim até então desconhecidas, e que hoje sei se chamarem de ‘batedeira’, ‘liquidificador’, ‘garrafa térmica’ e outros utensílios… Mas antes não havia “capital cultural escolarmente rentável”. Certamente encontrei a foto num reclame qualquer do mês de maio e do dia das mães! Como poderia descrever, como presentes, objetos totalmente alheios à vida cotidiana, ao que eu conhecia e via circulando em minha casa? Como dizer o desconhecido?
Manusear objetos, aprender suas formas, estabelecer correlações, formular um juízo hipotético: tudo a gente poderia ter feito, mas o difícil mesmo foi saber como se chamam as coisas desconhecidas. E foi tão difícil aprender.
E a escola me fez escolarizado
Quanta coisa aprendida! Quanta coisa esquecida. Segui em frente. Mudei de lado. Nunca mais retornei a Vila Castelarin. A escola já não deve haver. E me fiz letrado. Escrevo e falo sobre ensinar a escrever e a ler. Leio quase o dia todo. Quando meu pai ainda era vivo, ao voltar à casa, tão poucas palavras sobraram para compartilhar. Parece que vivíamos em mundos distintos, ele no seu mundo de analfabeto, e eu no mundo das letras, inteiramente ‘letral’. Eram nossos olhos que se diziam coisas, histórias e vidas. Tão bom foi aprender, depois de tudo, que a vida não cabe nas palavras dizíveis, porque as histórias valem mais do que as letras.
Mas
Disse antes: mudei de lado. Uma inexorabilidade do ser escolarizado? A escola está sempre a nos dizer que devemos aprender para viver, mas o aprender contém o matar o que poderíamos ter sido, se outros fossem os saberes que manuseássemos, formulássemos, dando vida e estatuto de saber ao que trazíamos (trazemos) da vida ignorada pelo que se ensina e aprende na escola.
Talvez a escola esteja sempre a nos dirigir a mesma história com que Ismael Beah encerra seu romance “Muito Longe de Casa – Memórias de um Menino-soldado”, neste duplo vínculo que até agora não conseguimos ainda desatar:
Era noite e estávamos sentados ao redor do fogo com os braços esticados na direção das chamas, ouvindo histórias e olhando a lua e as estrelas se recolhendo. O carvão incandescente da fogueira iluminava nossos rostos na escuridão e fiapos de fumaça subiam continuamente ao céu. Pa Sesay, um dos amigos de meu avô, contou muitas histórias para nós naquela noite, mas, antes que ele iniciasse a última história, disse repetidamente:
– Esta é uma história muito importante. – Ele, então, limpou a garganta e começou: – Havia um caçador que entrou nos arbustos para matar um macaco. Ele havia procurado por apenas alguns minutos quando viu o macaco sentado confortavelmente num galho de uma árvore baixa. O macaco não lhe deu a menor atenção, nem mesmo quando os passos do homem sobre as folhas secas subiam e desciam, se aproximando. Quando estava bem perto do macaco, atrás de uma árvore de onde ele conseguia ver o bicho claramente, ele levantou o rifle e apontou. Justo quando estava para apertar o gatilho, o macaco falou: “Se você atirar em mim, sua mãe vai morrer, e, se você não atirar, seu pai vai morrer.” O macaco voltou ao que estava fazendo antes, mastigando comida e de vez em quando coçando sua cabeça ou um lado da barriga. O que vocês iam fazer se vocês fossem o caçador?
Esta história era contada uma vez por ano aos jovens da minha aldeia. O contador de histórias, geralmente um ancião, colocava essa questão irrespondível ao final da história, na presença dos pais das crianças. Toda criança presente na reunião tinha que responder a pergunta, mas nenhuma criança jamais a respondia, pois tanto suas mães quanto seus pais estavam presentes. Nem o contador de histórias oferecia uma resposta. Durante cada reunião dessas, quando chegava minha vez de responder, eu sempre dizia ao contador de histórias que eu teria que pensar direito sobre aquilo, o que, é claro, não era lá uma resposta muito satisfatória.
Depois desses eventos, meus colegas e eu – todas as crianças entre as idades de seis e doze anos – sugeríamos diversas respostas possíveis que pudessem evitar a morte de um dos nossos pais. Não havia resposta correta. Se você poupasse o macaco, alguém ia morrer, e se você não o poupasse, alguém ia morrer do mesmo jeito.
Naquela noite chegamos a uma resposta, mas ela foi imediatamente rejeitada. Dissemos ao Pa Sesay que, se um de nós fosse o caçador, não teríamos saído para caçar macacos. Falamos para ele:
– Há outros animais, como os veados, para caçar.
– Essa não é uma resposta aceitável – ele disse. – Estamos supondo que você, como caçador, já levantou sua arma e tem que tomar uma decisão. – Ele quebrou sua noz de kola ao meio e sorriu antes de colocar um pedaço na boca.
Quando eu tinha sete anos, cheguei a uma resposta para aquela pergunta que fez sentido para mim. Porém, nunca a discuti com ninguém, por medo de como minha mãe se sentiria. Concluí que, se eu fosse o caçador, atiraria no macaco, para que ele nunca mais tivesse a oportunidade de colocar outros caçadores na mesma cilada.
Quem de nós, um dia, atirará no macaco assumindo a escola como o lugar de reflexão sobre o vivido para com ele reencontrar no passado ferramentas com que construir um novo futuro? Com que memória de futuro poderemos deslocar os saberes hegemônicos para os saberes subalternos, para que um dia
… os vermes iluminassem
Que os trastes iluminassem.
NOTA
- Texto apresentado na mesa redonda Diálogos Saberes Hegemônicos e Saberes Subalternos na Alfabetização no II Congresso Internacional Cotidiano Diálogos sobre Diálogos. Niterói, 3 a 6 de março de 2008. Publicado in. Regina Leite Garcia (org). Diálogos cotidianos. Rio de Janeiro : DP et alii, 2010, p. 267-273.
BIBLIOGRAFIA
Barros, Manoel. Poemas Rupestres. Rio de Janeiro : Record. 4ª. Edição, 2007.
Beah, Ismael. Muito Longe de Casa – Memórias de um menino-soldado. Rio de Janeiro : Ediouro, 2007
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

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