Memória e poesia

MEMÓRIA

Em tempos de prisões preventivas indeterminadas; de acusações sem provas, com base em convicção; de aparelhamento partidário das instâncias responsáveis pela aplicação das leis; de pedradas e ameaças de morte pelo uso de uma cor proibida pelo pensamento de direita, na melhor do que recordar um passado (entre nós mais recente, mas bastante distante em países mais civilizados):

“A tortura estava outrora tão enraizada nos usos judiciais que o desejado decreto que a aboliu não teve nenhum efeito durante muito tempo. Pensava-se que deveria ser o próprio criminoso a confessar para se concluir da sua plena culpabilidade, concepção que, além de não ter nenhum fundamento, era contrária ao espírito de uma justiça salutar, porque se as negações do acusado não são tidas como prova da sua inocência, as confissões dele devem ainda menos servir de prova de culpabilidade. Ainda hoje me acontece ouvir velhos juízes lamentando a abolição deste bárbaro costume. Naquela época, porém, ninguém duvidava, juízes e acusados, da necessidade da tortura.” (Aleksandre Púchkin. A Filha do Capitão, p. 57)

 

POESIA

Alfabeto do mundo

Em vão me demoro a soletrar

o alfabeto do mundo.

Leio nas pedras um escuro soluço,

ecos afogados em torres e edifícios,

indago a terra com o tacto

cheia de rios, de paisagens e cores,

mas engano-me sempre ao copiá-los.

Preciso de escrever cingindo-me a um risco

sobre o livro do horizonte.

Desenhar o milagre desses dias

que flutuam envoltos na luz

e se desprendem em cantos de pássaros.

Quando na rua os homens que vagueiam

do seu rancor à sua fadiga, matutando,

se me revelam inocentes mais que nunca.

Quando o batoteiro, a adúltera, o malandro,

os mártires do ouro ou do amor

são só signos que nunca li bem,

que ainda não consigo anotar em meu caderno.

Quanto eu queria ao menos um instante

que esta página febril de poesia

gravasse em sua transparência cada letra:

o o do ladrão o t do santo,

o gótico ditongo do corpo e seu desejo,

com a mesma escrita do mar nos areais,

a mesma cósmica piedade

que a vida desdobra ante meus olhos.

(Eugênio Montejo. Venezuela. Tradução de José Bento. Rosa do mundo. 2001 poemas para o futuro. Lisboa : Assírio & Alvim)

 

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.