Recebendo a base aliada no Palácio da Alvorada, para um jantar com quase 300 talheres (qual terá sido o custo para a nação?), Michel e Marcela “cortaram na carne” para mostrar a austeridade deste governo. No cardápio, não havia carne! De nenhuma espécie, nem camarão, nem crustáceos, nem filé mignon, nem lombinho e picanha suína, nem frango, sequer pato (que patos somos nós, e continuamos vivos depois do jantar em Palácio).
Então, que serviram Marcela e Michel? Como ela é bela e do lar, está dando exemplo de comportamento nestes tempos de “corte na carne”. Deve ter determinado que a cozinha do Palácio fizesse macarrão italiano (importado, porque Michel compra até sapatos na China!) ao molho de queijo roquefort, um queijo popular que importaram da França.
Como um macarrão chama um bom vinho, qual terá sido ofertado pelo casal?
Provavelmente foram daqueles vinhos que estão no alto das prateleiras, que a gente olha, vê o preço e vai baixando os olhos para as partes mais baixas das prateleiras dos supermercados. Namora cada garrafa, vê os preços, vira de costas e vai comprar a sobrevivência bem distante dali.
É óbvio que o casal não foi ao supermercado, estas coisas de mulheres “do lar”, belas ou não belas. Afinal, quem é “recatada” não se ocupa com comezinhas. Os mordomos do Palácio fizeram a encomenda de um bom vinho para acompanhar o macarrão italiano ao molho branco de queijo francês, isto porque, como disse o anfitrião em seu discurso, “estamos cortando na carne”.
Mas voltemos ao vinho! Nacionalista como é o entreguista do nosso petróleo e do nosso patrimônio, teria escolhido um vinho nacional? Talvez um Pericó Icewine cuja garrafa de 750 ml custaria R$ 850,00 (por isso no mercado estão disponíveis garrafas de 200 ml pelo módico preço de R$ 320,00) ou talvez algo mais modesto como um Don Laurindo Grand Reserva, cuja garrafa da safra de 2002 está custando módicos R$ 240,00.
Mas vinho nacional pega mal num ambiente assim seleto (e seletivo na perseguição penal). Talvez um Chateauneuf du Pape, um tanto popular, mas por lá estavam os representantes do povo; talvez para gostos mais densos (particularmente para densidades que se medem em milhares), um caro alentejano, só para lembrar os descobridores. Como nossos políticos são muito populares, têm os mesmos gostos do “povo”, talvez algum bom vinho da Toscana, para homenagear a rede Globo e suas novelas. Longe deles um Rioja porque a Espanha é a pátria do “Podemos” e aqui nada podemos.
Decidir o vinho foi problema do anfitrião. Coisa de homem, não de mulher “bela, recatada e do lar”. Aliás, foi necessário escolher algum espumante para a esposa presente diante de tantos homens e poucas mulheres. Certamente não foi um Casal Garcia…
Resolvidos estes detalhes de um jantar chique, mas econômico, pois não esqueçamos, “estamos cortando na carne”, tudo foi servido à francesa com os convivas sendo convocados a comparecerem à Câmara, assim “macarronados e vinhados”, na segunda-feira às 10,00 da madrugada para votarem nominalmente a PEC 241 que afogará os pobres brasileiros que ficarão sem escolas, sem SUS, sem saneamento básico, sem segurança, sem nada! Afinal, o papel no jantar chique do povo é ficar sem nada, que até as migalhas não sobram mais, que a ganância é grande e os banqueiros têm bocas enormes… são bocarras!”
Mas fiquei muito ressentido com a ingratidão do casal Marcela e Michel: não foram convidados o juiz Sérgio Moro e os procuradores da Lava Jato! Sequer o Rodrigo Janot, porque deixou os técnicos da Procuradoria vazarem um documento analítico da PEC 241 mostrando sua inconstitucionalidade.
E ainda por cima, a ingratidão chegou a tal ponto que o anfitrião chamou a atenção do judiciário brasileiro: ele deve estar ciente e consciente da grave situação vivida pelo país (vejam só, “estamos cortando na carne”) e deverá julgar qualquer ação, sem espírito corporativo, e sem levar em conta a legislação, pois o “acordado entre os golpistas vale mais do que o legislado”. Assim, o judiciário deverá, como sempre o fez, colaborar mesmo não tendo recebido seu prêmio combinado de 43% de aumento. Uma preocupação desnecessária que somente poderia ser expressa por um ingrato! Afinal, neste golpe, o judiciário está fazendo o papel que no golpe anterior coube aos militares: a perseguição, a censura, a seletividade dos condenados, etc… Tudo dentro do figurino, de modo que a figura anfitriã foi ingrata ao se preocupar com o judiciário.
E assim recebem Marcela e Michel… com corte na carne!
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

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