Será um espetáculo circense a sucessão de Eduardo Cunha na presidência da Câmara, como era de se prever quando se tem um governo no balcão de negócios. Mas a imprensa dirá que os negócios desvelam uma sólida base parlamentar.
Não se repetirá o mesmo espetáculo da famosa sessão de 17.04.16, quando os mesmos deputados foram chamados por Cunha para votar por deus, pela pátria, pela mãe, pela mulher (e ao telefone, dizendo às amantes que era por elas que votavam) a favor do impeachment, sem ninguém dizendo que votava porque sua consciência repudiava as tais pedaladas fiscais, o odioso “crime de responsabilidade” praticado tanto por FHC, Lula, Dilma (e Temer quando no exercício da presidência).
Agora não é a vez do espetáculo, é a vez da “negociação”. O processo se inicia com uns 15 sucessores possíveis, e entre eles há de tudo. A maioria deles são apenas forma de projeção para poderem depois abandonar a candidatura a preço de alguma benesse que lhes dará o governo de “sólida” base parlamentar. Não se trata de candidaturas, mas de jogada para tomar posição e valorizar um pouquinho, mesmo que pouquinho, o preço da venda do apoio, ainda mais agora que há a probabilidade de falta de financiamento de Eduardo Cunha para a próxima eleição em 2018! Há que começar a fazer o caixa da campanha futura. Nestes poucos dias que antecedem a decisão, os líderes negociarão com os “candidatos” suas desistências e a fixação do candidato preferencial, a pedido do Palácio que oficialmente não se manifestará a favor de ninguém.
Mas para mim, o estarrecedor nesta luta pela presidência da casa que não é o excesso de candidatos que querem negociar, mas o que noticia a imprensa: aproximações do candidato Rodrigo Maia, que votou a favor do impeachment, com o PT, em busca de apoio! E pior ainda é saber que há deputados do partido e petista (estes sim de alto coturno) que defendem a ideia!!! Unir-se ao DEM para eleger um presidente da Câmara? Era esta a vergonha que nos faltava, depois do aperto de mão entre Lula e Maluf!
Enquanto os militantes ou antigos militantes do partido e todos os democratas por princípio se unem para defender o mandato concedido por mais de 54 milhões de brasileiros à Presidenta Dilma Rousseff, membros de seu partido escutam propostas de união de forças precisamente com um representante do partido que mais fez oposição aos governos petistas!
Simplesmente haver a possibilidade de uma conversa que tal; simplesmente haver escuta por parlamentares do PT de tal proposta; simplesmente haver possíveis defensores desta hipótese, tudo é escandalosamente repugnante.
À boca pequena dizia desde o início do processo de impeachment que a maior vergonha que poderíamos vir a passar era o PT se constituir em base aliada de um governo ilegítimo do Sr. Michel Temer. Apoiar Rodrigo Maia para presidente da Câmara dos Deputados é o primeiro passo, a abertura da porteira para que isso venha a acontecer. Agora em nome do não isolamento (um carguinho na mesa diretora, uma posição cá ou lá em alguma comissão); logo, logo será em nome da “unidade nacional”, e não faltará um Mercadante qualquer para assumir um ministério.
Teremos que purgar mais isso, além da indesejada entrada do partido em esquemas de financiamentos eleitorais sempre antes existentes?
Tomem tento, senhores deputados petistas! Tomem tento, senhores dirigentes do partido!
Observação: já estava com esta crônica pronta ontem à noite quando tomei conhecimento da excelente Carta Aberta dirigida por Tarso Genro aos deputados petistas gaúchos. Ele defende um isolamento digno, com candidatura própria da esquerda, a mais uma aliança espúria com aqueles que sempre representaram o contrário do que defende o partido. Antes de saber de sua posição, já concordava com ele…
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

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