Levado pelo título

Sou um leitor m,ais ou menos voraz. E gosto muito de ler romances históricos. Levado pelo título, comprei numa livraria portuguesa o romance de Gérard de Villers, “Angola a Ferro e Fogo”, editado por uma estranha editora que se chama “Saída de Emergência”. Um romance policial que prometia narrar acontecimentos posteriores à independência, ou seja, tematizar a guerra civil e particularmente a MPLA e a UNITA. 

O autor, no entanto, tem um gosto particular por agentes secretos procedentes da nobreza (há dois príncipes prestando serviços, um à CIA (Malko) e outro (Stephan) a um pequeno grupo angolano de brancos de direita, FNLA). A “intervenções” principescas são sempre inusitadas, quase divinas, a mostrar uma urdidura inadequada do enredo. Malko é acompanhado em suas aventuras por gois “gorilas” da CIA que, desacostumados e não treinados para a tortura, viam-se embaraçados quando presenciavam alguma tortura sempre praticada pelo MPLA. Aliás, segundo o romance, a UNITA jamais se deixou corromper, era pura, perfeita e muito embora assediada pela CIA, não queria seu dinheiro…

Enfim, um romance péssimo em termos de urdidura do enredo, elaboração das personagens e ideologicamente inacreditavelmente panfletário a favor da CIA e da UNITA. Muita inverdade histórica para justificar uma luta que permance viva como história que se escreve nos tempos que correm. 

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.