Há dois interesses em jogo no grupo dos protagonistas do golpe articulado de mudança na condução do executivo: de um lado, o interesse econômico, representado pelos neoliberais de carteirinha, politicamente agrupados no PSDB e no DEM. A estes interessa fundamentalmente a venda, a concessão, a privatização urgente, urgente. Com mudanças de regras, de modo que jamais o país possa retomar as rédeas de áreas de atividade que são fundamentais para a construção de uma sociedade desenvolvida, com o seu relativo bem estar dentro, obviamente, dos limites que impõe o regime: só alegria e folgança para os ricos; aperto e exclusão para os pobres. Eles não chegam a propor o afogamento de mendigos no rio da Guarda, como propunham seus antecessores na UDN.
Neste primeiro grupo, o representante prototípico é o coveiro mor do país, José Serra. E como José Serra está em evidência, mas num lugar não desejado, porque lhe cabe abrir caminhos para os negócios, mas os acordos serão costurados em outros ministérios e as vendas serão coordenadas diretamente no palácio, por Moreira Franco – e portanto pelo PMDB – perderão os neoliberais de carteirinha as benesses advindas das concessões e venda. Consequência: enquanto José Serra não for para um ministério fundamental na área econômica – Fazenda ou Planejamento – e enquanto não se retirar o protagonismo do PMDB na privataria que vem vindo apressada, haverá vazamentos, haverá dossiês, haverá golpe dentro do golpe. Assim sempre agiu, assim sempre agirá José Serra.
A sobreposição destes interesses maiores torna a luta contra a corrupção, discurso que levou os trouxas às ruas, um mero engodo para justirficar o afastamento de uma presidente eleita e que não estava rezando segundo a cartilha elaborada pelo neoliberalismo, mantendo políticas sociais, dando o ‘nosso’ dinheiro para os pobres. O discurso era tão enganoso que nos bastidores o que se elaborava era um fim das investigações para que a corrupção, desde sempre instalada na política brasileira, tivesse curso livre, particularmente agora que se poderiam receber as benesses das privatarias.
Neste primeiro grupo, há um deus. Ele se chama mercado, que encobre na verdade interesses das grandes corporações multinacionais, dos seus agentes e de seus representantes na política. Busca-se o fim das nações, o fim dos estados, o fim da distribuição da riqueza, o fim dos perigos do capitalismo de risco, o fim do desenvolvimento social. A questão essencial para eles é ‘o valor de mercado’, que nada tem a ver com o valor real do patrimônio; os valores virtuais se sobrepõem aos valores reais. E registram lucros, lucros, lucros. Este é o golpe dos executivos, dos CEOs sobre os acionistas que um dia investiram capital e que agora somente jogam na bolsa, estilo Soros e seu assecla Armínio Fraga. As polpudas gratificações dos grandes executivos é a única coisa real neste mundo virtual do mercado. Na verdade, o deus mercado é um santo de pau oco que encobre justamente os interesses mesquinhos dos políticos neoliberais, dos executivos das multinacionais e dos jogadores do mercado financeiro.
O segundo grande grupo de interesse no golpe brasileiro, menos universalista e mais localista, tem a ver com dois objetivos políticos, o primeiro é extremamente ideológico e se trata de ‘enterrar’ para sempre qualquer veleidade de exercício do poder pela esquerda – eles consideram o PT um partido de esquerda. Há que derrubar o partido e seus líderes. Neste aspecto, é um grupo um tanto ‘demodée’, que faz atrasado em quase duas gerações a sua guerra contra o ‘comunismo’. Não é por acaso que o ‘medo do comunismo’ retornou às ruas. O segundo objetivo, consequência do primeiro, é a rearticulação das instituições públicas, um reordenamento nos modos de existerem e de funcionarem estas instituições. Trata-se de elaborar um aparato jurídico-policial que garanta a cabeça baixa das lideranças dos movimentos sociais, dos sindicatos, da esquerda em geral. Trata-se de manter enterrado o corpo da esquerda ideologiciamente assassinado no golpe.
Aqui o centro do golpe está na Procuradoria Geral da República e seu representante maior é Rodrigo Janot, neste momento crucial de golpes dentro do golpe. Este setor passou a um segundo plano no processo de impeachment, perdeu protagonismo, perdeu visibilidade. A novela da Lava Jato desapareceu das manchetes, passou a ocupar menos espaços, e delegados, procuradores e juiz não gostaram nada de perder holofotes. Então surge a tábua de salvação: a delação de Sérgio Machado, o ex-senador do PSDB, que embarcou no PMDB para se tornar executivo da Transpetro na cota deste particdo. Autorizado a conversar com seus amigos de gravador em punho – o que mostra a baixeza do indiciado – traz os vazamentos necessários para o retorno ao protagonismo deste setor: Romero Jucá, Renan Calheiros e José Sarney cairam na roda das gravações e das delações.
É óbvio para qualquer um que tenha lido ou ouvido os vazamentos, que eles não justificam o pedido de prisão encaminhado por Janot ao STF. Teori Zavacki sentou em cima do pedido, como já fizera desde dezembro sobre o pedido de afastamento de Eduardo Cunha, e não decidiu. Então vaza o pedido do mesmo lugar de onde tudo vaza (pobre do japonês da PF de Curitiba, que levou a fama, e agora está preso porque corrupto).: a Procuradoria Geral. E o protagonismo e holofotes se dividem, iluminando também este setor do golpe que estava um tanto apagado. Deixa o STF em saia curta: se negar mostrará o que é óbvio, prisão só para petistas. Se autorizar, vai se desmoralizar tanto do ponto de vista jurídico quanto do ponto de vista político, porque a prisão não será autorizada pelo poder legislativo.
Neste segundo grupo, há um deus e ele se chama Lava Jato. Como o grupo é mais ‘localista’, sem deixar de prestar serviços ao universalismo das grandes corporações. Lembram a teoria da dependência? Escreveu aquele que pediu para que esquecessem o que escreveu: “[…] utilizamos a noção de ‘desenvolvimento dependente associado’ para mostrar que os interesses dos grupos dominantes locais eram conciliáveis com os interesses internacionais e com a economia mundial, com os quais passavam a interligar-se de outro modo”. Desde então já se sabia que os interesses dos grupos locais – econômicos e políticos – copaginavam seus objetivos de lucro. Ora, este segundo grupo é o que representa a reorganização política das elites brasileiras – agora surgidas não mais dos currais eleitorais do passado, mas das camadas urbanas da alta classe média, com seus líderes heroicizados sob os holofotes da mídia. O deus é apenas metonímico: ele mostra como o regime deve funcionar: investigação policial, acusação e julgamento final devem todos ser conduzidos pelas mesmas pessoas, na forma de ‘forças-tarefa” (o uso da expressão força é discursivamente bem significativo em relação, por exemplo, ao sintagma “grupode investigação”). Este é o regime jurídico-policial. Que tem seus adeptos no STF, como Gilmar Mentes, Dias Toffoli e Rosa Weber.
É no contexto pela briga por protagonismo – e não pela briga por interesses divergentes – que os dois grupos têm pressa na consecução de seus objetivos: vender tudo (e lucrar); rearranjar tudo (e calar e mandar). São interesses conciliáveis para usar o adjetivo do tucano mor. O jogo de cena do pedido de prisão de Jucá, Renan e Sarney é jogo de cena. Não é golpe dentro do golpe, é simplesmente luta por holofotes. O golpe dentro do golpe virá de outra forma, mais cruel, a definição de quem tem o direito de mandar dentro destas novas elites urbanas: a economia ou a política?
Em certo sentido, retoma-se aqui a complementariedade que vigorou no mundo antigo: a do logos (economia) e a do mythos (política). Ou em termos mais modernos, os interesses mesquinhos dos lucros e os interesses de valores ideológicos a que se achega pela fé, pela crença, pela cegueira.
Janot faz o jogo. Volta às manchetes. Salva o exemplo mentonímico do regime que a polícia e o judiciário desejam implantadas como a novidade nas relações de poder, afastando clãs (Sarney), afastando currais (Renan), afastando corruptos (Jucá e Eduardo Cunha). Construção de um mundo asséptico, ao modelo de Orwell. O grande irmão será a polícia, o grande protetor da polícia será o judiciário. Enquanto isso se constroi, o primeiro grupo irá vendendo o patrimônio, amealhando dividendos. Não há golpe dentro do golpe. Há apenas movimentos de superfície para que um setor não apague o outro, ou para que os afoitos neoliberais compreendam que só vender não adianta, é preciso garantir definitivamente as vendas.
E estaremos conversados. Dentro de alguns cem anos, quando o virtual mostrar que é apenas bolha, nada mais do que bolha, recomeçaremos a construir o mundo destruído pela avalanche dos novos bárbaros, estes não mais vindos da periferia do mundo, mas do centro do mundo.
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

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