Segundo Bakhtin, todos ‘conheceremos’ duas mortes. A primeira a sofreremos fisicamente. A segunda não a sofreremos, e será quando desaparecerem todos que de nós se lembram. Alguns ficarão como monumento por suas obras, sobreviverão como monumento. Ninguém de nós dirá que se lembra de Sócrates, ainda que seja especialista em Sócrates. Conhecemos Sócrates como obra, como autor. Alguns destes monumentos caem no ostracismo ou são pouco conhecidos, como Valdo, condenado por herege porque usou sua fortuna para traduzir a Bíblia e distribui-la para leitura quase 300 anos antes de Lutero. Outros conhecem um ressurgimento. Montaigne, por exemplo, ressurge pelo trabalho de Foucault.
Inês é morta ou permanece viva como monumento pela história de que foi protagonista? Usamos a expressao “tarde demais, Inês é morta” em inúmeros sentidos e contextos. Por exemplo, quando alguém chega e já tomamos toda a cerveja ou comemos todo o sorvete, quase a significar que o recém chegado deu azar. Mas a cada uso, um outro sentido insiste e persiste: o da história de paixão entre Inês e D. Pedro. Inês, então, não é morta, mas é monumento.
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

Comentários