IMPICHA E DESIMPICHA

Uma segunda que parecia não oferecer nada novo a não ser as manobras do Temerbroso, desagradando a muitos para acumular pontos com alguns na formação de seu ministério, e seus propósitos de garantir que a Lava Jato continuaria em seu mandato, ao mesmo tempo em que seu porta-voz Moreira Franco dizia o que é verdade – que uma delação é apenas a suspeita de uma suspeita de uma suspeita – pois a deleção não é prova, como acha a imprensa brasileira, mas dito por Moreira Franco tem outro sentido, um sentido contrário àquele em que iria o pronunciamento de Temer blindando a força-tarefa da operação.

Aliás, é preciso que se dia: a força-tarefa é o modelo de um regime jurídico-policial, porque num mesmo grupo se reúnem investigação, acusação e julgamento!!! Qual a isenção de um juiz que faz parte da investigação e da acusação, para depois julgar???

Mas tudo isso ficou para trás! Maranhão, Maranhão… que andas tu aprontando? Viajas para o Maranhão, onde deixaste de ser presidente do Diretório Regional do PP porque não obedeceu à determinação de votar a favor do impeachment. Tua própria destituição do diretório, feito pela cúpula nacional do teu partido, demonstra que os votos dos deputados não seguiram sua consciência e nem foram movidos pela análise de fundo do pedido de impeachment, patrocinado pela jurista Janaína Paschoal, a possessa, pelo Hélio Bicudo, o bicudo e por Miguel Reale, o real. Então foi voto de cabresto? Parece ter sido, porque se não fora, por que demiti-te da direção regional de teu partido?

O Maranhão, estado, sempre nos traz surpresas… Na política, foi dominado por uma oligarquia durante dezenas de anos: a família Sarney. José,  o patriarca, já nos patrocinara no passado um exemplo de oportunismo político, se tornando candidato a vice-presidente na chapa de Trancredo, desobedecendo ao seu partido de base, a ARENA de triste memória.

Depois, o Maranhão nos surpreende: foge da oligarquia e elege um governador do Partido Comunista do Brasil!!! Não é pouco! É quase como a revolução de 1917, saindo do czarismo direto para o socialismo bolchevique. Uma mudança radical.

Agora o Maranhão, o deputado, faz uma mudança radical no processo de impeachment, ‘desimpichando’ a impichada, deixando o Senado com a brocha na mão e sem escada, com um presidente que deverá tomar alguma decisão sobre a ilegalidade do processo na Câmara, como apontado pela Advocacia Geral da União e pelo gesto de anulação das sessões “tão bem” conduzidas pelo Eduardo Cunha, aquele que sabe de cor o regimento interno, mas que externamente age segundo parâmetros pouco regimentais…

Pois estamos hoje sob o impacto da novidade. O impeachment é um natimorto? Um morto com vida? Um nascido e morto, mais um número para as estatísticas da mortalidade infantil?

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.