Homenagem a um imprescindível

 

“Hay hombres que luchan un día y son buenos. Hay otros que luchan un año y son mejores. Hay otros que luchan muchos años y son muy buenos. Pero hay quienes luchan toda la vida, esos son imprescindibles” — Bertolt Brecht

 

Hoje ou amanhã, o “Blog do Wanderley” vai superar seus quinhentos assinantes. Pode parecer pouco para quem não o lê ou para quem não sabe como funciona a “economia” das superfícies da Internet. Esse blog fica dentro do site de um grupo de pesquisa chamado “Portos”, em homenagem à obra maestra de Wanderley, Portos de passagem, e se chama “Passagens” por escolha dele em analogia.

Não é só uma apologia ao autor e seu trabalho, mas o reconhecimento de que o que ali se faz, se fez também e muito pela sua mão, seu olhar, sua integridade. Pedimos licença, e nos foi dada. E depois pedimos mais: tenha um blog no grupo.

E mesmo no direito do descanso de sua merecida aposentadoria, Wanderley aceitou e pelejou com gêneros e suportes até se apropriar magistralmente do lugar de fala. E para sua surpresa, mas não minha, começou a oferecer algo que é raro nos dias de hoje, mas é bem conhecido para quem foi seu aluno, seu parceiro, seu adversário. Um discurso íntegro, vigoroso, articulado e erudito que foi acolhido com muito entusiasmo por toda parte.

Então é fácil entender que a marca de quinhentos assinantes para um blog que não é impulsionado, que entrega ‘textões’ complexos diariamente sobre política, educação, cultura, que não faz concessões ao “gosto” e à “forma” fácil dos seus congêneres, seja algo estupendo.

Estamos falando de assinantes, mas os textos de Passagens são compartilhados no Facebook, por exemplo, às centenas. Já foi lido por dezenas milhares de pessoas em todas as corruptelas deste país e – pasmem – em todos os continentes. Wanderley também é muito lido no exterior.

Mas não é só isso, há naturalmente contrapalavras que não se podem ver, a não ser acidentalmente. E eu pude acompanhar um caso. Uma aluna me relatou que, ao ler um texto sobre o ensino de Língua Portuguesa, imprimiu o texto e o levou à coordenadora pedagógica da escola de seu filho e disse a ela: “É isso que espero que esta escola ofereça a meu filho”.

Sabemos também que professores que o leem fazem contato e, não raro, o põem em contato com seus alunos. E Wanderley responde, lê, discute e opina na discussão do professor e dos alunos.

Como líder do Grupo Portos, e com a licença do prof. João Wanderley Geraldi, aproveito essa marca apenas indiciária para comemorar o que um bakhtiniano como ele sabe melhor do que ninguém. Seus enunciados reverberam mais e mais, como ondas concêntricas na água, e justamente quando isso é mais necessário, quando nosso país afunda no cinismo e no golpismo.

Tenho uma regra que é de nunca parabenizar alguém muito maior e melhor do que eu. Para mim, o correto é agradecer. Muito obrigado, Wanderley, em nome de todos nós, seus leitores.

É por isso também que a conhecida passagem de Brecht não é lugar comum na epígrafe. Você é um imprescindível, e só um imprescindível sabe que a ética é da ordem do acontecimento e, portanto, quem luta, luta sempre. Só os imprescindíveis lutam de fato.

 

                                                                                                                         

 

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.