Comecei a ler a ‘trilogia’ de Umberto Eco (História da Beleza, 2004, História da Feiura, 2007, e História das terras e lugares lendários, 2013), pelo segundo volume. Mera curiosidade e, confesso, porque queria ver como apareceriam os trabalhos de Bosh e Bruegel em seu livro.
Antes de tudo, é preciso registrar: é um trabalho monumental aquele realizado pela equipe, e somente uma equipe poderia dar conta de tanta informação, tê-la disponível e trazer para dentro de um mesmo livro uma antologia de obras de artes (pintura, escultura, literatura, cinema, caricatura, etc) tão variada como aquela que compõe particularmente os dois primeiros volumes.
Assim, ler a História da Feiura é também ler vários autores, é apreciar inúmeras obras de arte, numa impressão primorosa (o selo é da Editora Record, mas os dois primeiros livros foram impressos na Itália). A história que nos conta Umberto Eco é aquela da recepção, por seus contemporâneos, das obras de arte, suas reações e também os compromissos assumidos pelos próprios artistas (por exemplo, o Manifesto Futurista de Marinetti, o do Surrealismo de Breton) com a forma de fazer arte. Deste conjunto, o autor vai extraindo uma história de feiura, do que se considerou feio e de sua variação ao longo do tempo.
A história traçada pelo livro não é uma história cronológica, mas uma história a partir de galerias temáticas, ainda que as referências temporais apareçam porque os movimentos artísticos, afinal, tiveram suas épocas áureas, desapareceram, ressurgiram adiante em novas formas (por exemplo, o Gótico reaparece hoje nos ‘góticos’, como em Marilyn Manson ou nos jovens e seus penteados e sua palidez cemiterial).
O feio sempre existiu como aquilo que se considerou feio, ou como aquilo que se considerou anormal (deficiências, monstruosidades, etc.). Os primeiros tinham trânsito livrem eram diferentes, mas não assustadores (Sócrates teria sido um homem feio), mas os monstros e os portentos eram assustadores (e continuam sendo, mas o susto com eles desaparece no cinema de terror ou mesmo na figura do simpático ET de Steven Spielberg).
Tomemos uma passagem de Santo Agostinho: “O que é mais terrível que um carnífice? O quer é mais bestial e cruel do que uma índole destas? Porém, entre as próprias leis, ele tem um lugar necessário e está inserido na ordem de um estado bem governado. […]O que pode ser considerado mais feio, desprovido de dignidade e pleno de inconveniência do que as prostitutas, os rufiões, as outras pragas deste gênero? Mas, tira as meretrizes da cidade e transtornarás tudo com as paixões desordenadas.” (p. 47).
O feio é também assunto das religiões (os diabos jamais foram representados como belos – na acepção de belo que temos – num mundo cristão ou não cristão), e assunto da filosofia. O feio está presente nas iluminuras de livros de orações, particularmente nos ‘livros de horas’. Assim, o feio também é edificante!!! Ou seja, o feio participa de um par contraditório aterrorizador/edificante. E por isso explora a sensibilidade humana que não consegue deixar de se sentir envolvida diante do “feio” do seu tempo (notem que podemos considerar terrível uma paisagem desolada em uma pintura, ou descrita no interior de um conto ou romance onde o mundo pobre aparece – “… estavam todos cobertos por tábuas e pedaços de papelão, formando várias choças de um andar, a bem dizer verdadeiros currais instáveis, mas habitados por seres humanos” (Jack London, O Povo do Abismo) – mas passamos indiferentes ao mesmo feio entre moradores de rua e mendigos contemporâneos).
Agora se pode contrapor este ponto de vista de um religioso da Antiguidade à filosofia dos refugos de Andy Warhol (“Há tanta gente com quem competir aqui, que a única esperança de ter alguma coisa está em trocar os próprios gostos e desejar aquilo que os outros não querem: a desejar o que foi descartado” ou ainda “A coisa mais bonita de Tóquio é o McDonald; A coisa mais bonita de Estocolmo é o McDonald; A coisa mais bonita de Florença é o McDonald”) em que o feio nos é jogado na cara como uma forma de desequilibrar nossas percepções cotidianas.
Umberto Eco e equipe usam comparações evidentes, mas que nos passam desapercebidas. Por exemplo, contraposição entre o quadro de Rembrandt (A lição de anatomia de Nicolaes Tulp)e aquele de William Hogarth (A recompensa da crueldade de As quatro faces da crueldade, quadro IV).
É muito interessante ler a antologia de opiniões (p.393) dadas ao tempo da produção de obras que hoje consideramos clássicas ou que fazem parte do panteão das manifestações artísticas. Recolho algumas destas opiniões:
Este rapaz não tem o menor talento. (Manet para Monet sobre Renoir).
Se (Chopin) tivesse submetido suas músicas ao julgamento de um especialista, ele as teria rasgado… De todo modo, é o que eu gostaria de fazer. (Ludwig Rellstab, Iris im Gebiete der Tonkunst, 1833).
Dentro de cem anos Les Fleurs du mal serão recordadas apenas como uma curiosidade (Émile Zola por ocasião da morte de Baudelaire).
Estudei longamente a música daquele patife. É um bastardo desprovido de qualquer qualidade. (Tchiakowski, em seu Diário, sobre Brahms).
O senhor sepultou seu romance em um cúmulo de detalhes que são bem desenhados, mas totalmente supérfluos (Carta de um editor a Flaubert, sobre Madame Bovary).
Em seus romances não há nada que revele dotes imaginativos particulares, nem a trama, nem os personagens. Balzac nunca ocupará um lugar de destaque na literatura francesa (Eugène Poitou. Revue des Deux Mondes, 1856).
Acabei de ler o Ulisses e julgo que é um insucesso… É prolixo e desagradável. É um texto bruto, não somente no sentido objetivo, mas também do ponto de vista literário (Do diário de Virgínia Wolff).
Se podemos concluir, lendo esta alentada história, que o feio e o belo podem variar ao longo do tempo, e por isso deveríamos ter uma posição relativista, a ela se contrapõe também outra perspectiva que deve ser levada em conta quando estamos diante do feio artisticamente produzido: ao produzir tensão no expectador, no leitor, o feio está sempre a nos mostrar que há algo de monstruoso, de mau com que convivemos e que poderemos tornar menos feio, menos repugnante.
Ante de encerrar seu livro com extrato do conto O Cottolengo, de Ítalo Calvino, diz-nos Umberto Eco:
Na vida cotidiana somos cercados por espetáculos horríveis. Vemos imagens de populações onde as crianças morrem de fome, reduzidas a esqueletos de barriga inchada, de países onde as mulheres são estupradas por invasores, de outros onde corpos humanos são torturados, assim como ressurgem continuamente sob nossos olhos as visões não muito remotas de outros esqueletos vivos à espera de entrar em uma câmara de gás. Vemos membros dilacerados pela explosão de um arranha-céu ou de um avião em voo e vivemos no terror de que isso possa acontecer conosco. Tais coisas são feias, não apenas em sentido moral, mas em sentido físico, isso porque suscitam nojo, susto, repulsa – independentemente do fato de que possam inspirar piedade, desdém, instinto de rebelião, solidariedade, mesmo quando aceitas com o fatalismo de quem acredita que a vida nada mais é que uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria e vazia de significado. Nenhuma consciência da relatividade dos valores estéticos elimina o fato de que, nestes casos, reconhecemos sem hesitação o feio e não conseguimos transformá-lo em objeto de prazer. Compreendemos então por que a arte dos vários séculos tem voltado com tanta insistência a representar o feio. Por mais marginal que seja, sua voz tenta recordar que há neste mundo algo de irredutível e maligno. (p. 436)
Referência: Eco, Umberto. História da feiura. Tradução de Eliana Aguiar. Rio de Janeiro : Record, 2007.
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.
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