Henrique Meirelles continua enganando a patuleia

Christine Lagarde não é das hostes da esquerda, como sabemos todos. Pelo contrário, de pensamento conservador, chegou ao FMI em tempos em que ainda se acreditava na receita neoliberal. É, no entanto, suficientemente inteligente para perceber que os remédios decretados pela troika (FMI, Banco Mundial e Banco Central Europeu, sob as ordens de Bruxelas) não estava recuperando os países endividados pela ganância de lucros dos bancos europeus e pelas exigências de Bruxelas de modernização apressada dos países membros da União Europeia.

Portugal se endividou para atender exigências de estradas e infraestrutura; o mesmo aconteceu com a Grécia. Espanha foi um pouco diferente, mas foi pelo mesmo caminho das ofertas de recursos que garantiram o crescimento da movimentação de capitais pelo mundo globalizado. Os empréstimos vencem. Não há tantos recursos disponíveis no mundo depois da crise de 2008, puxada pelos bancos e seus negócios escusos.

Desde então, o Estado Mínimo preconizado pelo neoliberalismo deixou de ser mínimo para atender aos grandes. Foram bilhões transferidos dos tesouros (particularmente dos EEUU) para a iniciativa privada se salvar, porque o capitalismo financeiro não é um capitalismo de risco como os áulicos do mercado querem fazer crer. Quando o risco de perdas aparece, o Estado tem que ter o máximo de recursos para colocar óleo (dinheiro) nas engrenagens para que tudo fique como está, isto é, os lucros e a pobreza aumentem.

A equipe do FMI é inteligente e não tapa o sol com a peneira. Reconheceu que seus remédios acabam com o paciente e que a paciência do “povaréu” tem limites. Assustou-se com Brexit! Assustou-se com o modelo de diplomacia patrocinada pelos governos Bush e Obama, o de que o mundo é um campo de guerra! A desestabilização do mundo árabe produziu guerras infindas que levam refugiados a atravessarem o Mediterrâneo para tentar se salvar da barbárie fabricada inicialmente nos escritórios da CIA e vendida como “primavera árabe” pela mídia.

E a macro política do FMI deu uma guinada. Lagarde vai ao Forum de Davos para dizer o que a esquerda sempre defendeu: o maior escândalo do mundo é a desigualdade social resultante da exploração desenfreada levada a efeito pelo capitalismo contemporâneo em que se aliam duas forças: o financismo improdutivo e o produtivismo extrativo que exaure o planeta. O resto da economia tem que se adaptar a estes tempos, tempos chamados de “mercado”. E o Planeta que se dane, como está mostrando a política de Trump, este engano na curva.

E Lagarde em Davos dá um puxão de orelhas no neoliberalismo atrasado de nosso ministro da Fazenda e da Previdência, ensinando-lhe o catecismo que ele poderia ter aprendido, não fosse tão tacanho, quando presidente do Banco Central no governo Lula. Henrique Meirelles, o homem forte do projeto de destruição da nação cuja execução está sendo levada às pressas pelo provisório governo Temer, não aprende! Nem levando puxão de orelhas de Lagarde.

Como o regime político que nos governa é jurídico-midiático com o emprego da força policial, foi com surpresa que a patuleia tomou conhecimento da decisão judicial de não permitir a transferência gratuita, sem ônus, de parte do patrimônio público para as teles, orçado mentirosamente, para esta mesma patuleia aceitar o presentinho, em 17 bi, que logo passou a 87 bi, que logo passou a 105 bi e que hoje anda sendo orçado em 130 bi! Um negócio da china, patrocinado pelo sempre emburrecido dirigente de nossa economia, suspendido por um ministro que ainda não entendeu direito o projeto! O assunto voltou a Senado que sabe que deve fazer a doação. Ainda retornará ao pleno do STF que sabe perfeitamente o que deve fazer a doação prevista e negociada, com urgência, antes que o povo cheiroso se dê conta da besteira que fez ao bater panelas nas sacadas de seus apartamentos de luxo.   

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.