O Brasil acompanha atônito os acontecimentos em Brasília e no Rio de Janeiro! Pelas imagens, parece que estamos em guerra civil: um dos lados armado de paus, hastes plásticas de bandeiras, isqueiros e cigarros acesos e algum gás de pimenta de bolsa; de outro lado balas de borracha, bombas de efeito moral e gás de pimenta à vontade. Violências dos dois lados, inevitavelmente.
Quando uma grande parte da população – 15% de desempregados – já não tem mais o que perder; quando há um arrocho salarial nunca visto; quando no horizonte só é possível ver o futuro de fome dos filhos, neste ambiente muitos assumem que não há mais o que perder. E saem também da discussão política para a violência.
Quando um governo quer enfiar goela abaixo da população reformas ditadas não se sabe por quais verdadeiros interesses, alegando que isto é necessário para a retomada do crescimento econômico, apesar dos exemplos recentes que provam o contrário (Grécia e Espanha aplicaram o mesmo remédio e foram para o fundo do poço; Portugal rompeu com a receita e está se desenvolvendo, o que mostra que distribuição de renda é requisito para o crescimento econômico); quando um governa vai se tornando cada vez mais ilegítimo não só pela forma como chegou a ser governo, mas também pelas estripulias e atividades espúrias que a quadrilha que governa sempre praticou mas que agora vem à público; quando 90% ou mais da população se mostra contrária à Reforma Previdenciária e a Reforma Trabalhista (numa pesquisa feita pelo próprio partido do Presidente usurpador) e assim mesmo, através de negociatas, o governo paga a provação destas reformas ao Congresso, quando isso tudo está no clima do ambiente, tudo pode acontecer e não se pode inocentar nem o governo, nem sua polícia treinada para bater e para a violência contra o que lhe causa urticárias: presença do povo na rua.
Quem começou primeiro? Da violência específica desta tarde não interessa saber quem começou. Mas quem começou a violência de uma orientação da economia em benefício de muito poucos, uma violência que, simbólica, está se tornando física pela miserabilidade que está produzindo, sabem quem foi: o programa de governo que a maioria da população rejeitou reiteradamente em quatro eleições!
O que também não saberemos, mesmo que investigações fechadas venham a saber – e isto não vai fazer – e mesmo que grupos internos às forças policiais e políticas o saibam desde agora, é quem são os manifestantes mascarados! Neles há de tudo: de policiais a militantes de extrema esquerda. E foram estes que começaram os atos de vandalismo a que a polícia respondeu com uma violência inacreditável… Deu até para a Globo e para a CBN falarem de excesso de bombas e tiros de borracha!!!
Se houvesse um pouquinho, apenas um pouquinho de racionalidade entre aqueles que têm responsabilidade social, haveria uma mesa de negociações
- Entre os dois grupos da ditadura jurídico-midiática (MPF/Brasília x República de Curitiba);
- Entre os partidos de apoio ao governo Temer, impondo a este, depois das denúncias de corrupção, que renuncie urgentemente para permitir uma retomada racional da sociedade brasileira, deixando seu interesse mesquinho de “foro privilegiado” prejudicar tanto o país;
- Entre os dois grupos em briga no alto comando da nação: entre o capital financeiro e o capital produtivo (não é à toa que a mídia está também dividida, os grandes jornalões de S. Paulo defendendo a permanência de Temer e as reformas para conseguirem maior lucratividade que, sabem de antemão, será transferida para o capital financeiro; não adianta nada apertar o cinto dos trabalhadores que assim que os banqueiros que mandam na Fazenda virem alguma gordura de lucro ficarão extremamente assanhados para abocanhar);
O Congresso Nacional poderia ter um pouquinho, só um pouquinho de vergonha na cara e suspender a votação das Reformas; suspender a votação das benesses para minorias – o próximo REFIS prevê descontos de até 90% em dívidas ao Erário Público; é este refinanciamento que espera a sonegadora Rede Globo, que faz até processos desaparecerem, filmados por câmeras de segurança e nada acontece). Um pouquinho só de escuta da população, de seus eleitores, faria deputados e senadores ficarem vermelhos de vergonha!!! No entanto, a eles fala mais alto a barganha, o dinheiro por baixo da cueca, o caixa 2 e outros malabarismos. E neste tipo de ação estão emparelhados deputados de praticamente todos os partidos.
Obviamente há um lado da sociedade – aquele que abriu janelas e bateu panelas – que está órfão de lideranças! Descobriram atrasados que seus “anjos” não eram anjos mas demônios corruptos. Este lado perdeu as ilusões e agora está sem rumo… Mas habituados pelo martelar constante da mídia de que a culpa é do outro lado, esquecem a orfandade e continuam a bater no gato que já mataram! Morrem de medo da lenda popular de que o gato tem sete vidas…
E claro, este ódio alimentado a pão de ló pelas TVs e revistas antigamente sérias em algum momento teria que explodir. Estamos chegando lá…
E os interessados numa intervenção militar, numa ditadura sob cuja sombra cresceram e lucrarão muito, estão felizes ao verem o campo de batalha em Brasília e no Rio de Janeiro inteiramente esfumaçado. Sob a nebulosidade das fumaças na superfície, os porões conspiram! Se não acharem logo o substituto de Temer, virá do porão a solução mais drástica.
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

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