Estive eu viajando durante um dia! Chega-se em casa, depois de longo tempo ausente, e os bons serviços públicos, sob concessões feitas durante os tempos outros do neoliberalismo não policial, obviamente não funcionam. Internet? Nem pensar! O custo é alto, mas o serviço é péssimo.
Consegui me conectar no final da tarde desta quinta-feira. Começo a ler notícias. Claro, me chamou atenção a operação policial que invadiu o Hospital Sírio-Libanês para prender Guido Mantega que acompanhava a mulher numa cirurgia para extirpar um câncer.
Como há um câncer incrustrado nas ações da PF que envolvam a Lava Jato – nesta magna operação, tudo se faz para produzir espetáculo midiático – obviamente um mandado expedido em 16 de agosto somente pode ser cumprido precisamente no dia em que Guido Mantega passava pela estressante experiência de acompanhar uma cirurgia de sua mulher. E mesmo neste dia, a PF não podia executar o mandado a não ser depois que já estivesse no hospital. O efeito midiático seria mais interessante.
Acontece que neste caso o desejo de um tal efeito venho sobrecarregado pela crueldade monstruosa da ação. Já sabemos todos que no regime em implantação no país não existem garantias para direitos humanos. A PM de São Paulo age livremente; procurador do Estado incentiva a violência e garante impunidade na região do “seu tribunal do júri” – podem matar que eu arquivo o inquérito, garantiu o procurador; pois a PF não quer ficar para trás. Cumpre mais de mês depois um mandado justa e precisamente num momento de fragilidade do denunciado. Denunciado? delatado? réu? Acho que hoje não há mais diferença jurídica entre estes estágios, porque atualmente o criminoso é definido previamente por convicção, depois se investiga o crime a lhe atribuir, de modo que não interessam mais as distinções entre delatado, investigado, denunciado e réu. A definição de que é criminoso é dada como premissa na má aplicação do raciocínio abdutivo que conduz o comportamento dos policiais, delegados, procuradores e juiz da Lava Jato.
Pois Guido Mantega está definido como criminoso. Como estão definidos como criminosos todos os pobres, os pretos, as putas e os petistas. Resta apenas escolher o crime a lhes atribuir. E definido como criminoso, determina o Sr. Juiz, nosso Salvador, que fosse Mantega conduzido à prisão. E determina isso há mais de mês.
Não imaginem que a PF seja leniente, descuidada, relapsa no cumprimento de determinações judiciais, particularmente se emanadas de tão eminente fonte! Ela simplesmente estava esperando o momento oportuno, isto é, mais espetaculoso possível para agir. E realiza sua operação precisamente quando os cirurgiões do Hospital Sírio-Libanês realizam uma outra operação, esta visando salvar uma vida. São duas operações de salvamento: a operação dos médicos, a operação da PF. O prestígio e humanidade da primeira deveria ressaltar a monstruosidade da segunda.
Não pensem que a PF deu um tiro no pé. Tão monstruosa foi a operação que o Dr. Sérgio Moro, nosso Salvador, recuou e suspendeu a determinação que emanara, sem ouvir o ministério público dada a urgência da decisão. E aí aparece um respeitoso juiz que tem presente a vida humana e os direitos humanos. Afinal ele precisava desta oportunidade para começar a limpar um pouco sua imagem de desrespeitador dos direitos humanos. A PF, calculadamente, lhe ofereceu esta oportunidade. Um juiz carrasco humano, se a contradição passa. Obviamente, carrasco de certos políticos, de certo partido. Humano e bondoso para com delações sobre outros políticos, sobre outros partidos.
Mas o que vale mesmo éi este jogo descarado: a PF pratica uma ação humanamente desastrosa e monstruosa; o Dr. Sérgio Moro, nosso Salvador, salva Guido Mantega e aparece mais uma vez como herói atento aos direitos humanos! Tudo de caso pensado, calculado, midiaticamente válido. Quanto à legalidade, quanto à justiça, bom isso fica para o contraditório no decorrer do processo, tempo em que o Sr. Juiz não ouvirá argumentos da defesa porque o criminoso já está definido. Porque se ouvisse, teria ao menos levado em conta toda a crítica jurídica feita à denúncia contra Lula por inócua e não respaldada em fatos. A fé e a convicção compartilhadas entre Sérgio Moro e Deltan Dallagnol (e demais procuradores da Lava Jato) dispensam fatos, dispensam argumentos.
Assim será também com Guido Mantega, mas por enquanto Sérgio Moro está usufruindo da imagem desejada de um homem ainda humano, atento não só aos interesses que lhe foram encomendados, mas também aos direitos humanos de seus para sempre já “criminosos”.
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

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