É no campo do empresariado que encontramos os melhores exemplos do que deve ser a vida na economia de mercado. Há poucos dias tivemos a manifestação inequívoca do líder da CNI. O que os empreendedores querem é redução dos salários a pagar; redução de impostos; redução de contribuições sociais e redução nos juros dos empréstimos – obviamente sem reduzir o que recebem nos seus investimentos no mundo das finanças para onde migram os recursos que poderiam ser aplicados no aumento de produtividade. Aliás, no país aumento de produtividade significa aumento de horas de trabalho, numa confusão de conceitos econômicos. A mais alta produtividade é aquela que se consegue fazer a mesma quantidade de produtos com o mínimo de trabalho graças à tecnologia empregada na produção.
Deu-nos o líder da CNI a forma desejada de produtividade: aumento das horas de trabalho, de preferência sem pagamento, ao bom estilo da escravatura, regime de que sempre sentirão saudades. Ele é nosso melhor exemplo de agente produtivo do meio urbano.
Vem de Mato Grosso, de Nova Guarita, o exemplo do meio rural. Carlos Raposo, fazendeiro e raposa velha na grilagem simplesmente contratou serviços de uma empresa aérea para jogar veneno em todo o assentamento Raimundo Pereira III. Envenenou adultos, homens e mulheres. Envenenou crianças. Envenenou a plantação. Envenenou a própria Terra. Ele sabe que não tem título de propriedade da terra ocupada pelo assentamento. Pertence à União.
Mas Carlos Raposo, como raposa em galinheiro, quer para si o que não lhe pertence. E agora que ouviu falar que é preciso “cuidar dos lucros” como quer o Sr. Michel Temer, não teme e fecha contratos de envenenamento. A polícia o prendeu, mas o soltou imediatamente. Ele tem recursos para fianças, obviamente. Mas se apresenta como um bom exemplar de homem de negócios no mundo do passado que se tornou agora o futuro.
Grilagem, trabalho escravo, entrega do subsolo aos grileiros do petróleo: este o futuro que se descortina para todos nós. D. Hélder Câmara dizia, nos tempos da ditadura, que a FSP chama de dita ditaleve, que no futuro os pobres poderiam fazer de seus ossos armas com que combater. Com todo meu respeito e carinho pelo prelado falecido – que jamais seria canonizado por um João Paulo II – acho que não sobrarão ossos. Defunto é mercado. E no mercado nada deve se perder… Logo, logo, sai uma lei autorizando transformar ossos de cemiterios em pó para fazer adubo para aumentar a produtividade do agronegócio. Afinal, cemitérios são desperdícios. Foi a falta desta lei que fez fracassar a privatização dos cemitérios públicos da cidade de São Paulo que tentou realizar nosso ministro da Chevron, José Serra.
Quem sabe Rodrigo Maia, agora presidente da Câmara em votação de “união nacional” que incluiu até mesmo o PT pronha uma lei: fica proibido enterrar pobres mortos, eles devem ser transformados em adubo. Assim crescerá o produto interno bruto. Nada bruto. Vital.
João Wanderley Geraldi
Contributor
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.
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