Eu choro CRISTINA

Sei que não choro sozinho. Aqui na distante Dinamarca, choro com Corinta. Choro com Joana. Choro com Alex. Nosso pranto distante soma-se ao pranto dos outros irmãos, dos outros tantos sobrinhos, de tantos outros familiares. Estes prantos todos, sabemos, não consolarão o Olavo, a Marília, o Roberto, o Lourenço. Eles sabem que a ausência que se inicia deixa um vácuo jamais preenchível.

Se morrer é da circunstância de estar vivo, continuar vivendo depois da perda é morrer devagarinho, sobrecarregados da energia que se foi junto com Cristina.

Os dez anos de idade que me separam da irmã que perco agora me permitiram acompanhá-la desde uma longínqua Semana da Pátria em que, depois do desfile dos colégios, ficamos sabendo que tínhamos mais uma irmã! E que ela era Maria Cristina.

Ela era a segunda do que em família chamávamos da segunda geração! Nós da primeira geração éramos uma escadinha, um atrás do outro com intervalos de 2 anos, 2 anos e poucos meses. Depois de um longo tempo sem bebês, tudo recomeçou e vieram mais quatro que compõem a nossa segunda geração.

Nascidos quando nosso pai mudava de atividade, do pequeno comércio para a lavoura de trigo e soja. Foram para Lajeado das Pombas. Estudaram numa escola rural. E Cristina assumia desde pequenota trabalhos de adultos. Era trabalhadeira, como dizíamos então.

Mais tarde, quando a curta experiência paterna de agricultor se encerra, todos de volta para a cidade, os mais novos continuaram seus estudos. Nós os mais velhos trabalhávamos e estudávamos. Éramos adultos, se é que aos 15/16 anos alguém possa ser adulto.

Depois de terminado o então primeiro grau (ensino fundamental), Cristina começa a trabalhar e estudar à noite. Fui seu professor de Português em todo o ensino médio noturno! Por três anos. Irmão e professor. Era boa aluna, e eu um professor mais ou menos liberal, não sem momentos de autoritarismo.

Cristina cresceu, Cristina se casou com o Olavo, Cristina se tornou empresária do ramo dos cosméticos. Cristina construiu uma vida de trabalho, mas também de alegrias. Convidou-me para padrinho do Lourenço!

Fomos próximos e fomos distantes. Tivemos as desavenças de irmãos. Tivemos as alegrias fraternas do convívio.

Cristina sempre foi uma presença na sociedade e no seu tempo. Mesmo depois de aposentada, de uma família já criada, foi cuidar de crianças em situação de risco! Deu mais do que lhe era exigido. Doou-se mais do que se pode esperar de uma pessoa. Não contente com esta generosidade tanta, nos últimos seis anos acolhe em sua casa a velhice de nossa mãe.

Agora Cristina nos deixa. Ficamos cá com um sentimento de perda, mas também de injustiça: a natureza nem sempre é mãe generosa. Ficamos nós mais velhos, vai você que tinha tanto a viver. Sua falta torna mais velhos até seus irmãos mais novos. E teremos todos que extrair energias, neste momento sem sabermos de onde, para continuarmos sem sua presença.

Éramos 11 irmãos. Hoje somos 9 irmãos e uma mãe beirando os 100 anos. Estamos todos feridos. E sabemos que não haverá cicatriz. Sangramos sua falta. E no entanto temos a obrigação de entender que mais falta faz você ao Olavo, à Marília, ao Roberto e ao Lourenço. A seus netos, a seu genro e a sua nora.

Onde estiver você agora, vela por eles como hoje velamos você.   

  

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.