Estadão: até tu, Brutus, espinafrando o Dr. Deltan Dallagnol?

Em editorial de ontem (09.02.17), sob o título “Silêncio cúmplice”, O ESTADO DE S. PAULO, depois de ter dado grande espaço numa longa entrevista com o procurador-chefe da Lava Jato, o Sr. Deltan Dallagnol, numa entrevista em edição anterior, chama à ordem as instituições da área jurídica, desde associações de profissionais (OAB,  até órgão público, como o Ministério Público, acusando-as de cúmplices por omissão, por não estarem se manifestando contra práticas que considera longe do “Bom Direito”.

O mau direito praticado na operação é apontado, salientando-se a defesa da “possibilidade de condenar uma pessoa mesmo que paire alguma dúvida se de fato ela cometeu o crime do qual é acusada”. Vai mais longe: chama de abusos que o Ministério Público não denuncia; levanta o dedo acusatório para as instituições e órgãos de classe que não se pronunciam contra as ideias presentes na atuação dos procuradores da Lava Jato simplesmente porque têm medo da reação de radicais defensores da operação.

Ora, esta operação está em vigor desde 2015, e avoca a si todo combate à corrupção (como se fora a primeira e única operação que condenou corruptos na história) e a própria imprensa, incluído o Estadão, chamam outras operações – como aquela que levou Sérgio Cabral à cadeia – de “filhotes da Lava Jato”, a mãe de todas operações e matrona que comanda todo o Ministério Público e cujo juiz se eleva à posição de indicar o que deve fazer o Supremo Tribunal Federal. E neste, mesmo quando um juiz afirma que houve ilícitos praticados pelo juiz, não encaminha qualquer procedimento para barrar estas ilicitudes, antes pelo contrário, dá sinal verde para que continuem, num coro uníssono que vai do Tribunal Regional Federal até o STF admitindo qualquer coisa que pratique a operação, desde vazamentos seletivos, espetáculos midiáticos até o crime de escuta ilegal de autoridade e a divulgação de seu conteúdo! A Lava Jato pode tudo, até mesmo tornar pública conversa particular entre mãe e filho. Nenhum problema, está recoberta pelo manto protetor da justiça para praticar o que o Estadão agora está chamando de mau direito!!! Como antes não era “mau direito”, este editorial nos obriga a formular a pergunta: por que agora, e somente agora, esta distinção entre bom e mau direito e esta acusação?

O Estadão é um jornal reconhecidamente conservador, com uma orientação liberal. Defende o Estado de Direito, em que a lei deve ser cumprida como garantia para a sociedade. Quer dizer, isso quando seus outros interesses ideológicos não suplantam essa orientação, como ocorreu em 1964. O Estado de Direito impõe que os agentes da justiça não se ponham a pousar de artistas globais imberbes, que isso é função dos atores iniciantes de Malhação (vejam como estou informado pelas férias!).

Até agora, só aplausos aos atores globais da República de Curitiba (que felizmente não se reduz à longa Vara do juiz Sérgio Moro). Começaram as críticas na imprensa. A razão explícita é a defesa do Estado de Direito, do “Bom Direito”. Mas o motivo para o editorial é outro: as delações estão chegando onde não deveriam. O juiz que as barrou dizendo “isto não vem ao caso” não está mais dando conta de acobertar tantos delatados, entre eles um desaparecido ministro antes tão consultado, José Serra, o queridinho da imprensa, seu eterno candidato à presidência.

É aí que mora a razão para o dedo em riste do Estadão! Há que defender que nem toda doação das construtoras para os partidos é ilegal! Que não se pode usar – e usar mal, pobre Charles Pierce! – o método indiciário e seu raciocínio abdutivo. Deltan Dallagnol não é um Sherlock Holmes. Quando tentou, no famoso power point, costurar seus indícios centrando tudo em Lula, demonstrou cabalmente que jamais poderia ser personagem de Sir Arthur Conan Doyle, nem mesmo o obtuso Dr. Watson, que faria sozinho melhor do que faz o nosso, agora chamado pelo Estadão de defensor e praticante do mau direito.

Desde sempre este mau direito foi apontado pela imprensa alternativa. Desde sempre a associação entre a ação policial e judicial com a mídia foi apontada como um desvio de conduta. Desde sempre a espetacularização do mal foi denunciada. E deve continuar a sê-lo, mesmo quando os que caem na rede são os golpistas que se apossaram do poder. Porque se os denunciados de agora são adversários dos denunciados outrora, não se deve aplaudir os métodos inadequados das investigações em que a convicção fala mais alto do que as provas. Nem a orientação do juiz Sérgio Moro de que o denunciado pode provar sua inocência no processo, porque numa denúncia que torna um cidadão réu o ônus da prova é do denunciante! De ninguém se pode exigir que prove ser inocente.

Não quero deixar de registrar aqui: Lula no velório de D. Marisa Letícia disse que quer viver o tempo necessário para fazer com que aqueles que a acusaram injustamente sejam obrigados a pedirem desculpas! O juiz Sérgio Moro começou a treinar o pedido de desculpa ontem durante o depoimento de Fernando Henrique Cardoso. Vai treinando, vai treinando… que precisará pedir desculpas também a muitos desempregados pela destruição que vem fazendo da economia brasileira.

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.