Neste caso, tudo pode ser. O mais provável é que seja um erro de transcrição ou digitação. Mas como estes erros não passariam desapercebidos por um discípulo de Freud em qualquer das correntes da psicanálise de hoje, vale a pena debruçar-se sobre os sentidos possíveis do erro ou do lapso. Edinho Silva, ex-coordenador finaceiro da campanha da chapa Dilma/Temer e ex-ministro da Secretaria de Comunicação Social foi entrevistado pelo Estadão. Desta vez tenho que concordar: a manchete é “É possível dialogar com o PSDB sobre a reforma política”. Esta a firmação política mais importante do entrevistado. Se você ligar esta entrevista com aquela de FHC ameaçando o Temerbroso de desembarcar do governo se ele seguir caminhos errados (FHC sempre soube o que é certo e o que é errado em política), a previsão de um futuro mais ou menos imediato seria de PT + PSDB se juntarem na oposição ao governo usurpador. Não acredito. O DNA do PSDB é de carrapato: não tem como chegar ao poder pelo voto, mas vive do que pulsa no poder. Não desembarcará do governo que ajudou a criar pela usurpação de cargo. Vai largar o osso?
Voltemos à entrevista do ex-ministro. Entre outras verdades, afirma que o presidencialismo sai enfraquecido com o golpe (obediente à Rosa Weber, o entrevistado não usa a palavra golpe, mas ‘afastamento’, muito diplomaticamente, o que me causa espanto num ex-ministro recém apeado do cargo por um golpe de estado). E chama por uma reforma política, apontando para o retorno ao parlamentarismo inventado no Brasil para evitar a posse e o governo de João Goulart (Jango). A entrevista segue o diapasão: um PT disposto ao diálogo, apoiando iniciativas do governo usurpador, um PT disposto a assumir seus erros (menos o ajuste fiscal, calote eleitoral de Dilma em 2015). Apontando para uma oposição que apresente projetos, que tenha projeto.
O PT sempre teve um projeto. O que fez o segundo governo Dilma foi abandonar o projeto de uma ‘Nova Economia’, que Mantega tentou implementar. Sabia-se que o ciclo do consumo como mola propulsora do desenvolvimento tinha limites claros – ninguém troca bens de consumo duráveis todos os anos, particularmente as famílias que recém chegavam ao consumo e compraram geladeiras, fogões, ar-condicionados, carros – tudo a prestações. Mantega tentou um novo ciclo, o do desenvolvimento pelo investimento em infra-estrutura, facilitando a vida dos empresários com o bolsa-empresário, os juros subsidiados, etc. Um programa aliás combinado com os empresários! Mas a poderosa FIESP preferiu aliar-se a seus comparsas políticos de sempre, e não respondeu à proposta que ajudara a formular, entrando com força no golpe que viria a afastar Dilma e o PT do poder. Um golpe preparado de longa data! A aposta de 2002 foi circunstancial. Esperavam quatro anos de governo Lula fracassando. A experiência morreria ali, e mostraria ao ‘povo brasileiro’ que a elite governa melhor. Impossível melhor circunstância – governo FHC terminava impopular, com o píres na mão pedindo emprétimos ao FMI, as agências de risco internacionais avaliando o Brasil abaixo do que hoje mancheteiam os jornais, um desemprego maior do que o atual, etc. etc.
Para Edinho Silva, o ex-ministro, parece que o PT não tem projeto de sociedade, que experiência bem sucedida de governo não foi um projeto. Agora estaria em busca de um projeto, e não aprofundando o que o levou ao poder: a construção de uma sociedade menos desigual. Pois é neste contexto temático que repete o que jornalistas de direita não se cansam de reafirmar – o PT está sem rumo, está sem projeto – que ocorre numa das respostas um erro de transcrição, um lapso, uma previsão ou uma mentira dos entrevistadores. Vamos a ele:
– E se, eventualmente, alguma proposta de Temer estiver em acordo com o que pensa o PT?
Nós temeremos de ver. O PT não pode ser oposição pela oposição porque é um partido que governou o Brasil por 13 anos. Mas, neste momento, o que pode sair desse pacote de reforma que vem aí pode ser algo que arrebente com vitórias históricas da soeidade brasileira. […]
Pela resposta, tudo indica que o caminho é o da oposição ao pacote (econômico). Mas aponta para uma negociação na política (uma possível saída pelo parlamentarismo). A mim chamou atenção o temeremos em lugar do temos no primeiro enunciado da resposta. ‘Temeremos” é o futuro do verbo ‘temer’, primeira pessoa do plural. Temeremos ver alguma proposta de acordo com o projeto do PT? Mas ‘temeremos’ também pode ser um neologismo. Os neologismos aparecem com frequência no mundo político: ‘tancredar’ para apoiar a candidatura de Tancredo à presidência em eleição indireta (depois, no jargão médico, passou a significar “está tudo perdido”). ‘Malufar’ foi muito usado como sinômino de furtar. Na escola as crianças denunciavam: “fulano malufou meu lápis, professora!”. ‘Cristianizar’, aceitar a candidatura de alguém oficialmente, mas trabalhar para sua derrota. ‘Tucanar’, dar apoio ao PSDB. Os membros do partido Democratas, antigo PFL, o núcleo duro da antiga ARENA de triste memória, passaram a ser chamados de ‘demos’, que é sinônimo de ‘diabo’. Os exemplos não inúmeros. Ora, na política inventa-se. As invenções podem durar pouco tempo: ficam como registro na história.
Pois por que não um verbo “têmer” para apoio ao Temerbroso? Aí termeremos no enunciado seria um subterfúgio para fazer passar um recado, na forma de um lapso, de vontade profunda de estar com o governo! Temeremos todos este têmer-emos do lapso do transcritor da entrevista. Uma pacificação nacional? Uma conciliação depois de sofrer um golpe? Uma unanimidade burra, apenas de aparência, ao estilo do que ocorreu nos tempos do “Brasil, ame-o ou deixe-o”? Não haverá têmer-emos mesmo que jornalistas ou transcritores de entrevistas queiram por na boca do entrevistado um lapso freudiano.
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

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