Entre reconhecimentos, compreensões e interpretações[1]
João Wanderley Geraldi
Na história das sociedades humanas, as vontades de mudança defrontam-se com poderosíssimas inércias, materiais e, ainda mais, mentais.
(Carlo Ginzburg. Mitos, Emblemas, Sinais)
INTRODUÇÃO
A passagem da admissão do sistema ptolomaico para o sistema copernicano não se fez numa só geração. Ainda em 1615, Belarmino (que tentara salvar Giordano Bruno), escreveu:
Se houvesse alguma prova real de que o Sol se encontra no centro do Universo, de que a Terra ocupa a terceira esfera, e de que o Sol não gira em torno da Terra senão a Terra em torno do Sol, então nos veríamos obrigados a proceder com grande circunspecção em explicar as passagens das Escrituras que parecem ensinar o contrário, e deveríamos dizer que não os compreendemos antes de declarar falsa uma opinião que se tem demonstrado verdadeira. Mas não creio que exista tal prova, posto que não se me há mostrado nenhuma. Demonstrar que se salvam as aparências, supondo o Sol no centro e a Terra nos céus, não é a mesma coisa que o demonstrar realmente. Creio que pode existir a primeira demonstração, mas tenho graves dúvidas acerca da segunda, e em caso de dúvida não se pode abandonar as Sagradas Escrituras tal como as interpretam os Santos Padres (Najmanovich, 2003, p. 47-48)
Mas também em meados do Século XIX encontraremos outro exemplo:
Augusto Comte, fundador da doutrina positivista, expôs publicamente sua “manifesta hostilidade ao microscópio na lição XLI do Cours de Philosophie Positive. Recordemos que Leewenhoek observou pela primeira vez o mundo novo dos “’animálculos’ microscópicos a meados do século XVII, logrando que muitos dos seus contemporâneos o considerassem diletante e fantasioso”. (idem, p. 43)
Os dois exemplos são suficientes para nos mostrar que o correr do tempo se fez e se faz necessário para que o novo seja aceito, e que a construção do novo conhecimento não se fez nem se faz sem ‘escândalos’ no presente, de modo que se pode pensar até mesmo em dizer que um novo paradigma somente se torna hegemônico não pelo convencimento da quase totalidade dos cientistas, mas com a morte dos cientistas mais velhos. Entre Leewenhoek e Pasteur se passaram dois séculos! E só depois deste a existência do micromundo deixou de ser controvertida.
A ciência a que agora já estamos acostumados, chamada moderna, caracterizar-se-á por três grandes princípios: universalidade, objetividade e preditibilidade, excluindo de seu mundo o sujeito, o tempo e o espaço. Para alcançar este tempo zero, espaço zero e sujeito zero, seu grande calcanhar de Aquiles sempre foi a questão metodológica. Era preciso inventar um método capaz de construir o sujeito neutro, sem história [ele e seu objeto de estudo], e sem lugar [se não aquele do laboratório que não deveria influenciar em suas observações, descrições e análises, ainda que saibamos todos que os instrumentos de um e outro laboratório serão fartamente responsáveis pelas descobertas neutras e objetivas].
Como sabemos, nem a razão, nem a observação, são invenções da modernidade: as observações astronômicas começaram com os sumérios. A grande fábula da modernidade é a crença na razão pura, desligada do corpo, dos afetos, dos desejos, das crenças, das experiências práticas vitais. Foi o recurso ao método que permitiu a instauração desta razão pura.
1. A sobredeterminação metodológica
Um método é um conjunto de princípios de descoberta que, seguidos com rigor, levam a descobertas surpreendentes. Descartes expôs um método, e desde então, qualquer afirmação se sustenta mais no método de descoberta do que na sua relação com o mundo, com o real, que supostamente funcionaria como o “tertius comparacionis” de todo dizer científico.
Em verdade, a relação do pesquisador não se dá diretamente com as “coisas”, mas com seus Outros. Entre estes, quando se trata de ciências humanas, obviamente há os sujeitos de sua própria pesquisa, para quem os resultados chegarão apenas na forma de tecnologias que venham a ser “inventadas” a partir das descobertas. Mas há os sujeitos que sobredeterminam a sua prática – os outros cientistas – e que lhe cobrarão a “metodologia”, a explicitação do método empregado para chegar aos resultados obtidos. No entanto, Leibniz já havia dito que Descartes, seguindo seu método, descobriu coisas interessantes, mas se outro pesquisador seguir as mesmas regras somente descobrirá o que Descartes já descobrira: será preciso, para fazer descobertas surpreendentes, desobedecer ao método metodicamente porque outros são os objetos sobre os quais se debruça o pesquisador.
Ora, a sobredeterminação metódica seguida à risca somente permitirá que se diga o dizível, o previsível.
A natureza teórica do conhecimento científico decorre dos pressupostos epistemológicos e das regras metodológicas […]. É um conhecimento causal que aspira à formulação de leis, à luz de regularidades observadas, com vista a prever o comportamento futuro dos fenómenos. A descoberta das leis da natureza assenta, por um lado, […], no isolamento das condições iniciais relevantes […] e por outro lado no pressuposto de que o resultado se produzirá indepentemente do lugar e do tempo em que se realizarem as condições iniciais. Por outras palavras, a descoberta das leis da natureza assenta no princípio de que a posição absoluta e o tempo absoluto nunca são condições iniciais relevantes. (Santos, 1987, p. 16)
O conhecimento garantiria sua verdade somente quando o que permite predizer realmente acontece, sob as condições dadas. Talvez a prática médica possa nos fornecer contra exemplos. Na relação entre enfermo e médico, o que o primeiro busca é a cura, fundado na esperança que atribui ao segundo o poder curativo, fundado num saber. O médico, usando as técnicas de diagnóstico (hoje muito mais fundadas em signos fornecidos pela engenharia médica do que em sintomas apontados pelo enfermo), prescreve na expectativa de que neste organismo repita-se o que estatisticamente foi verificado para as terapêuticas aconselháveis para o caso, já que os signos fornecidos pelos exames permitem interpretar “o não silêncio dos órgãos”, já que uma das definições tradicionais de saúde é “o silêncio dos órgãos”. Embora a utilização de signos tenha alterado as relações entre paciente e médico, aumentando o poder deste de decidir como observou Canguilhem
A partir del momento en que la medicina deja de fundar su diagnóstico en la observación de síntomas espontáneos para apoyarlo en el examen de signos provocados, las relaciones respectivas de enfermo y médico con la naturaleza se transforman. El enfermo, al no poder diferenciar él mismo los signos de los síntomas, se inclina a considerar natural cualquier conducta adoptada exclusivamente en función de los síntomas.
(Canguilhem, 2004, p. 29)
No entanto, todo médico tem consciência dos limites de eficácia dos seus saberes, e mais, “não ignora que nenhuma cura é um retorno” ao estado anterior, numa reversibilidade dos fenômenos, crença em que se fundaram toda a mecânica e a cosmologia clássica.
Assim, nossos conhecimentos transformados em técnicas e caminhos de ação, conhecem hoje sua fabilidade. Reconhecemos hoje como mito prever e prescrever deterministicamente o futuro.
Seríamos capazes de, reconhecendo esta fabilidade, reconhecermos também que há conhecimentos importantes, cognitivamente relevantes (teoria da literatura, por exemplo), capazes de orientar ações na história sem que o ponto de chegada já esteja dado no ponto de partida?
2. Buscar outros caminhos
A busca de novos caminhos, abandonando, nas ciências humanas, o complexo de inferioridade diante das ciências duras, é consequência precisamente do próprio desenvolvimento das ciências bem estabelecidas que outrora pretendíamos imitar. Retomemos aqui as quatro grandes constatações teóricas apontadas por Santos (1987) como fundamentais para a crise do paradigma científico moderno:
- A questão einsteiniana da relatividade da simultaneidade dos acontecimentos distantes que leva a um círculo vicioso: a fim de determinar a simultaneidade dos acontecimentos distantes é necessário conhecer a velocidade; mas para medir a velocidade é necessário conhecer a simultaneidade dos acontecimentos;
- Heisenberger e Bohr, tratando as medições locais, demonstram que não é possível observar ou medir um objeto sem interferir nele, sem o alterar, e a tal ponto que o objeto que sai de um processo de medição não é o mesmo que lá entrou;
- A impossibilidade, em certas circunstâncias, de encontrar dentro de um dado sistema formal a prova da sua consistência, pois mesmo seguindo à risca as regras da lógica matemática, é possível formular proposições indecidíveis (cf. Gödel);
- A teoria das estruturas dissipativas de Prigogine e o princípio da “ordem através de flutuações”: há uma lógica de auto-organização numa situação de não-equilíbrio. (Santos, 1987, p. 24-28)
Chegamos assim a uma
…nova concepção da matéria e da natureza […] dificilmente compaginável com a que herdamos da física clássica. Em vez da eternidade, a história; em vez do determinismo, a imprevisibilidade; em vez do mecanicismo, a interpenetração, a espontaneidade e a auto-organização; em vez da reversibilidade, a irreversibilidade e a evolução; em vez da necessidade, a criatividade e o acidente. (idem, p.28)
Certamente é a área da medicina que pode nos oferecer os melhores exemplos da irreversibilidade. Todo o desenvolvimento farmacológico que a ciência moderna produziu – e não se pensa em jogar fora o bebê junto com a água do banho – auxiliou a medicina no exercício da busca da cura (às vezes, também da saúde, como nos processos de vacinação). Mas também alargou as possibilidades de lucratividade dos laboratórios, cujos interesses empresariais se sobrepõem aos interesses sociais e da saúde. A medicalização da sociedade é consequência desta ambivalência entre as formas de produção dos fármacos e os objetivos da saúde, da não dor ou mesmo da cura. Obviamente estamos muito distantes dos tempos do “decreto de Tibério” : “passada a idade de trinta anos, todo o homem deve poder ser seu próprio médico” sustentado na confiança da ação da natureza na re-equilibração do organismo em situação de desequilíbrio. Mas o excesso da medicalização, tornando “doença” o que pode ser apenas diferença, sem qualquer confiança nos processos naturais, que somente voltariam após intervenção, é também uma consequência da crença em nossos mitos de que somos capazes de tudo resolver com nossos conhecimentos.
Aceitar que nossos conhecimentos não dão conta de tudo, que há mistérios insondáveis com as capacidades de que dispomos enquanto homens (e não deuses da razão), é aceitar o acaso e o acontecimento. Em outras palavras, aceitar que “a vida é demasiado preciosa para ser esbanjada num mundo desencantado” (Mia Couto, Jesusalém, na voz de Silvestre Vitalício, p. 25).
Se as ciências ditas exatas estão em busca de novos caminhos, talvez as ciências humanas estejam em condições de oferecer sua história como lugar de reflexão para a construção destes novos caminhos. Talvez tenha chegado o momento de reconhecer o mito primeiro do projeto moderno de ciência – tudo conhecer, tudo desvendar. Aceitar, como faz Bakhtin no texto Metodologia das ciências humanas, que há incognoscíveis em dois limites: de um lado, a coisa em si, acessível somente enquanto objeto de interesse – nossas descrições dos objetos respondem aos interesses (teóricos e práticos) da descrição já que a coisa em si, exposta e muda, é o que dela dissermos que é; de outro lado, a ideia de “Deus em presença de Deus”, questão de fé e prece, mas não de conhecimento; a Ele, um equivalente, o indivíduo, onde “há um núcleo interior que não pode ser absorvido, consumido, em que sempre se conserva uma distância em relação à qual só é possível o puro desinteresse; ao abrir-se para o outro, o indivíduo sempre permanece também para si” (p.394).
Espacialmente, poderíamos desenhar um triângulo, dois vértices ocupados pelo inacessível, um vértice pelo mundo da existência onde circula o que conhecemos:
a coisa em si —————– Deus/ou o ‘eu’ intocável
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mundo da existência: dos seres expressivos e falantes
É no mundo da existência que estão os seres humanos que conhecem as coisas em função de seus interesses (cujas descrições e análises chamamos de conhecimento científico); é neste mesmo mundo que vivem os seres que creem, capazes de projetar outro mundo ou esconder para si e em si o recôndito intocável (mesmo o desconhecendo, como mostrou a psicanálise) e neste mesmo mundo, existindo em relação com os outros, em nosso ambiente, vivemos não só com o que nele encontramos, mas também com nossos horizontes (nossos modos de ver) que se projetam para seu exterior.
É aqui que conhecemos as coisas e a nós próprios (sempre com a margem do intocável, do não cognoscível). E que é conhecer no mundo da existência? É oferecer uma compreensão, uma interpertreção do vivido. Seu critério de validade não é a verdade em si (como se efetivamente disséssemos os homens e as coisas em si como queria o projeto da modernidade), mas a profundidade da penetração de nossas compreensões, profundidade que obtemos pelo distanciamento que nos permite o excedente de conhecimento e o excedente de visão.
Todo ser expressivo, falante, “se representa” em suas falas, usando sua liberdade, sua vontade e sua incondicional bilateralidade (sua relação com o outro, com a alteridade), de tal modo que se os fatos podem materialmente estar “estabelecidos” e por isso serem imutáveis, sua transfiguração pela memória torna-os inacabáveis em seus sentidos. Por isso nossas compreensões, ao contrário de se apresentarem como fechadas peremptoriamente como “verdades”, são mutáveis, são objetos do riso que abre os sentidos provisórios que estatuímos num momento para abandonar noutro momento diante de novos critérios, novos elementos considerados etc. já que “toda interpretação do símbolo permanece ela mesma símbolo, só que um tranto racionalizado, isto é, um tanto aproximado do conceito” (p.398).
A interpretação como descoberta da presença por meio da percepção visual (contemplação) e da adjunção por elaboração criadora. Antecipação do contexto em expansão subsequente, sua relação com o todo acabado e com o contexto inacabado. Tal sentido (no contexto inacabado) não é tranquilo nem cômodo (nele não se pode ficar tranquilo nem morrer). (p.398)
3. Reconhecimento, compreensão e interpretação
Construir uma intrepretação, isto é, associar a uma compreensão uma elaboração criativa, talvez seja a profundidade almejada nas ciências humanas. Enquanto interpretação, sempre sujeita às vicissitudes da história. Para construi-la, é impossível seguir um método pré-dado. Nas palavras de Ginzburg (1989, p. 179)
Ninguém aprende o ofício de conhecedor ou de diagnosticador limitando-se a pôr em prática regras preexistentes. Nesse tipo de conhecimento entram em jogo (diz-se normalmente) elementos imponderáveis: faro, golpe de vista, intuição.
Já que “as pretensões de conhecimetno sistemático mostram-se cada vez mais como veleidades” (idem, p.177), talvez devamos nos conformar com os processos que a própria linguagem oferece.
Retomemos uma distinção que aparece no livro “Para uma filosofia do ato responsável” de Bakhtin. Trata-se da diferença entre istina e pravda, expressões que traduzimos como verdade. A verdade-istina é aquela que se obtém por sucessivas abstrações; são verdades construídas no interior de uma teoria em que se constroi um modelo abstrato de explicação de um objeto. A verdade-pravda é aquela do mundo da vida, relativa ao acontecimento em si e às percepções que dele fazem os sujeitos envolvidos. Não resulta da abstração que exclui singularidades, mas ao contrário da adição continuada de elementos de tal modo que a verdade-pravda pode ser uma num momento, e outra noutro momento posterior em se acrescentaram novos elementos para formular um juízo de valor (aqui, de valor de verdade).
Se pudéssemos fazer uma redução a fórmulas lógicas, os raciocínios que levam à verdade-istina são da ordem da implicação: “se p, q”; “se q, r” e assim sucessivamente, de tal modo que a conclusão final também será expressa na mesma fórmula: “se Y, X”. O raciocínio que leva à verdade-pravda é da ordem da adição: “p & q & r & …”. Toda vez que adicionamos nova informação, o produto final de nossa análise pode se alterar ou pode se confirmar com maior peso.
Se imaginarmos um modo de compreensão que se baseia nos processos de adição, outro será o sentido que daremos a seguinte passagem de Bakhtin:
Não se pode mudar o aspecto efetivamente material do passado, no entanto o aspecto de sentido, o aspecto expressivo, falante pode ser modificado, porquanto é inacabável e não coincide consigo mesmo (ou é livre). O papel da memória nessa eterna transfiguração do passado. Conhecimento – compreensão do passado em sua índole inacabável (em sua não-coincidência consigo mesmo). O elemento de intrepidez no conhecimento. O temor e a intimidação na expressão (seriedade), na auto-revelação, na franqueza, na palavra. O momento correspondente de resignação do cognoscente; a reverência (…). (Bakhtin, 2003, p. 396)
Cada novo aspecto do sentido do passado resulta da adição no presente de uma informação antes não disponível. A referência à intrepidez no conhecimento faz abandonar qualquer imagem da segurança de um método. E mais, “a resignação do cognoscente; a reverência” são atitudes daqueles que sabem que a verdade do passado jamais receberá um carimbo de “causa finita”.
Segundo Bakhtin, é uma herança do racionalismo considerar apenas como “verdade” a verdade-istina. Isto implica em defender que é possível buscar a verdade do particular, do acontecimento, do singular, do irrepetível.
A defesa de uma ciência do particular contradiz os modos modernos de fazer ciência. Por isso Saussure descartou a linguagem como um possível objeto da Linguística, porque tratar da linguagem não é só tratar do heteróclito, é também tratar da totalidade em sua complexidade e paradoxalmente tratar do singular, porque este é a síntese de múltiplas determinações. Certamente aqui, diante do dilema galileano em que se encontraram as ciências humanas, como apontado por Ginzburg (1989), uma ciência do particular preferirá dizer coisas significativas e substanciosas com prejuízo da cientificidade (no sentido moderno de ciência) a dizer trivialidades garantidas pelo método preconizado dos processos científicos (da indução ou da dedução). Quem estuda a linguagem não está interessado em “picar” a língua para encontrar seus fonemas, ainda que possa usar os resultados deste tipo de pesquisa para caminhar em seu processo de mergulho de compreensão profunda da atividade verbal. Quem estuda a linguagem não está interessado nos “recortes” dos discursos, mas no enunciado completo, total, para cotejá-lo com outros enunciados fazendo emergirem mais vozes para uma penetração mais profunda no discurso, sem silenciar a voz que fala em benefício de um já dito que se repete constantemente.
Assim,
Em que medida é possível descobrir e comentar o sentido (da imagem ou do símbolo?) Só mediante outro sentido (isomorfo), do símbolo ou da imagem? É impossível dissolver o sentido em conceitos. O papel do comentário. Pode haver uma racionalização relativa do sentido (a análise científica habitual), ou um aprofundamento do sentido com o auxílio de outros sentidos (a interpretação artístico-filosófica). O aprofundamento mediante ampliação do contexto distante.
A interpretação das estruturas simbólicas tem de entranhar-se na infinitude dos sentidos simbólicos, razão por que não pode vir a ser científica na acepção de índole científica das ciências exatas.
A interpretação dos sentidos não pode ser científica, mas é profundamente cognitiva. Pode servir diretamente à prática vinculada às coisas.
“Cumpre reconhecer a simbologia não como forma não científica mas como forma heterocientífica do saber, dotada de suas próprias leis e critérios internos de exatidão” (Aviérintsiev). (Bakhtin, op. cit., p. 399)
O aprofundamento do empreendimento interpretativo resulta da ampliação do contexto, fazendo emergirem mais vozes do que aquelas que são evidentes na superfície discursiva. Não para enxergar nestas vozes a fonte do dizer, mas para fazer dialogarem diferentes textos, diferentes vozes. O múltiplo como necessário à compreensão do enunciado, em si único e irrepetível. A unicidade se deixa penetrar pela mulplicidade. Cotejar textos (caminho metodológico percorrido constantemente pelos membros do Círculo de Bakhtin) é a única forma de desvendar os sentidos.
É impossível esgotar os sentidos já que “o objeto das ciências humanas é o ser expressivo e falante” (p.395). É consequência de seu objeto, não reduzido a “coisa morta” sobre que se debruçaria o pesquisador. A Linguística teria encontrado este tipo de objeto morto na língua, e por isso é apontada por Ginzburg (1989) como a única ciência humana que resolveu o impasse galileano. Mas os linguistas sabem perfeitamente que ao fazerem isso abandonaram qualquer pretensão de tratar dos sentidos. Ao deixar de lado os sentidos, a Linguística mutila até mesmo a língua, pois esta se funda nos sentidos. Mesmo um princípio de descoberta simples como o da comutação exige que se leve em conta precisamente o sentido, que subrepticiamente retorna à Linguística das formas.
Com nossa heterocientificidade, tentando desvendar a verdade-pravda do singular – um discurso literário ou não – construindo para ele uma interpretação cuja profundidade depende crucialmente das possibilidades de ampliação dos contextos possíveis, e por isso das condições do sujeito que analisa, como encontrar indicações metodológicas para a caminhada?
Voltemos a Bakhtin:
Desmebramento da compreensão em atos particulares. Na compreensão efetiva, real e concreta, eles se fundem indissoluvelmente em um processo único de compreensão, porém cada ato particular tem uma autonomia semântica (de conteúdo) ideal e pode ser destacado do ato empírico concreto. 1) A percepção psicofisiológica do signo físico (palavra, cor , forma espacial). 2) Seu reconhecimento (como conhecido ou desconhecido). A compreensão de seu significado reprodutível (geral) na língua. 3) A compreensão de seu significado em dado contexto (mais próxima e mais distante). 4) A compreensão ativo-dialógica (discussão-concordância). A inserção no contexto dialógico. O elemento valorativo na compreensão e seu grau de profundidade e de universalidade. (Bakhtin, op. cit, p.398)
Estes momentos detectáveis no processo de construção de uma compreensão podem nos oferecer alguns subsídios aos processos de pesquisa. Antes de mais nada, um estudo bakhtiniano não existe sem um objeto empírico que é preciso ter presente. Não há análise de discurso sem discurso. O processo de reconhecimento exige um conhecimento, até mesmo para afirmar um desconhecimento. Como este conhecimento se constitui? Como um falante reconhece um enunciado como pertencente a sua língua? Conhecendo a língua (obviamente não no sentido de Saussure), o que ele aprende por uma atividade objetificante: a palavra do outro que aprendo nos processos interativos torna-se palavra própria-alheia com que passo a aprender outras palavras até que as palavras se tornam “minhas” por esquecimento da origem. Estas palavras que conheço e com as quais reconheço outras palavras ou o retorno da mesma palavra (reconhecimento) são produtos de abstrações do falante porque lhe exigiu que descontextualizasse as palavras dos enunciados ouvidos e respondidos construindo um conhecimento abstrato necessário ao reconhecimento
[1] Por isso todo o falante de uma língua é capaz de abstração. As generalizações dos cientistas levam esta capacidade ao mais alto nível, mas o processo é o mesmo.
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

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