ENTRE POEMAS, UM PRELÚDIO PARA MUITAS VOZES

ENTRE POEMAS, UM PRELÚDIO PARA MUITAS VOZES

 

 

João Wanderley Geraldi[1]

 

Ainda alimento a esperança de que, pelo menos, o nosso Projeto possa se livrar das pressões da sociedade global baseada exclusivamente sobre o progresso tecnológico. Talvez, assim, possamos incorporar as sábias lições da Natureza que ainda estão aqui vivas e latentes. Apesar dos massacres e da destruição praticados contra tudo e todos, a ferro-e-fogo, pelos colonizadores portugueses, ainda é possível colher velhos e novos ensinamentos, desde que passemos a ver a terra, as coisas e os seres com uma nova concepção geográfica da vida. (Benedicto Monteiro, A terceira margem)

1ª. VOZ: A VOZ BARULHENTA DAS HEGEMONIAS

            Aparentemente, a vida quotidiana vem sendo cada vez mais “esteticizada”: os designers esteticizam os objetos que usamos, tornam arte industrial o prato, o talher, o copo. O cozinheiro o secunda no enfeite do prato: comemos o estético, o colorido, o enfeite. E as academias modelam os corpos: malhação e quando esta já não mais resolve a manutenção do estado de um corpo sempre jovem, pois o belo do gosto estético atual é o jovem, não faltam os enchimentos (botox) ou, se for o caso, as sucções (as lipo-aspirações). Não é só o que usamos que é manuseado pela estética industrial. Fabrica-se também o corpo para portar o novo recorte da indústria do vestuário: aquela camiseta, aquela blusa que mostrou Gisela Bündchen.  

         E tudo há que obsolescer: na fila outro produto vem correndo, outra moda impondo as trocas dos objetos que devem ser esquecidos. Obsolescência contínua. Para ser um bom cidadão, um bom consumidor, é preciso fazer terapia do desapego: de nada se pode gostar muito porque este sentimento irracional não abre espaço para o novo produto das prateleiras dos supermercados, das lojas de departamento, das ‘butiques’ dos shopping-centers. É preciso estar atento e tudo descartar. Criamos o lixo, no apanágio da velocidade. As tecnologias nos oferecem tudo “em tempo real”. Viver é adrenalina circulando veloz. Mobilidade e fluidez é o que nos pedem.

         Pelo consumo, contornamos nossas feridas narcísicas: a Terra não é mais o centro do universo conhecido, mas EU me tornei o centro em torno do qual os objetos estão à disposição; descobrimos que não somos filhos de deus, mas descendentes de primatas símios, mas MEU corpo esbelto e musculoso pode flanar pelos corredores dos shopping-centers, chamar atenção e talvez encontrar par para um prazer momentâneo, ligeiro, fluido, sem compromissos; não somos totalmente animais racionais, os recalques do inconsciente também dirigem as ações que faço, mas EU conheço a mim mesmo e o mundo em que habito, compreendo-o cientificamente e nada mais é me é secreto.

“E o homem, entretanto, este inseto invisível,

Rastejando nos sulcos de um globo imperceptível,

Mede desses fogos as grandezas e os pesos,

Designa-lhes seu lugar, e sua estrada, e suas leis,

Como se, em suas mãos que o compasso fere,

Ele rolasse esses sois como grãos de areia!”

“E Saturno obscurecido por seu anel longínquo!”

(Lamartine, “L’infini dans les cieux”)[2]

 

2ª. VOZ – A VOZ DAS SOBREVIVÊNCIAS TÁTICAS

 

         Embora martelem a mesma tecla os meios de comunicação, e sem piedade as publicidades que veiculam, nada é uníssono na sociedade contemporânea. Sob a aparente tranquilidade das águas coloridas e ‘cantantes’ das praças fechadas dos Iguatemis, move-se outro mundo submerso, de voz mais fraca, menos barulhenta. Como diz Certeau

… diante de uma produção racionalizada, expansionista, centralizada, espetacular e barulhenta, posta-se uma produção de tipo totalmente diverso, qualificada como “consumo”, que tem como característica suas astúcias, seu esfarelamento em conformidade com as ocasiões, suas “piratarias”, sua clandestinidade, seu murmúrio incansável, em suma, uma quase-invisibilidade, pois ela quase não se faz notar por produtos próprios (onde teria o seu lugar?) mas por uma arte de utilizar aqueles que lhe são impostos.  (Michel de Certeau. A Invenção do Cotidiano, p. 94)

         Aqui, o consumo não é aquele do usuário das ofertas do mercado. Aqui se trata do consumo não previsto, não só pelo emprego dos mesmos objetos para outros fins, mas principalmente por sua reutilização, por sua captura diferenciada do mesmo. Assim, as cercas de arame que servem para demarcar propriedades são as mesmas que o MST torna porteiras, cortando-as para ocupar os territórios vazios, trazendo outro canto e outra vida para os espaços delimitadas e excludentes da estrutura fundiária.

         As vozes sobreviventes são capazes de mobilizar e se fazerem ouvir: as recentes manifestações de rua, reunindo multidões efêmeras, sem bandeiras, mas com interesses focados, exemplificam como estas vozes podem se tornar audíveis. Se o foco no passe livre do MPL trouxe às ruas estas vozes, junto a elas ainda outras vozes se levantaram para proferir outros discursos: os Black Blocs e o discurso da violência, porque para eles somente o que fere o bolso do sistema pode ser ouvido.

         Num sistema excludente como aquele patrocinado pelo modelo neoliberal, as vozes sobreviventes que escutamos aqui são aquelas que demandam a inclusão no sistema (no caso do MST, ao menos temporariamente até a construção da sociedade socialista). Como disse Emir Sader[3], não são movimentos que querem outro estado, mais estado, inspirados do estado de bem estar social que o neoliberalismo enterrou. Querem, sobretudo, os benefícios deste estado que deve permanecer mínimo, com menos políticos, sem corrupção. Não há um futuro para além que mantenha as multidões unidas na forma de um ente político como povo que reivindica o que lhe pertence. Com reivindicações e sem bandeiras, realizam o que os pós-modernos chamam de “multidões”: sempre efêmeras, fluidas, que se juntam aqui e se separam logo além.

         Mas estas não são vozes enganosas. Se o canto de sereia do sistema ainda modula seu cantar, o que cantam abre caminhos para a mudança das hegemonias barulhentas. É preciso escutá-las e perscrutá-las, envolvendo-se com elas para que se voltem para outra pauta inconciliável com os “modus vivendi” do sistema neoliberal. Foi o que fizeram muitos outros militantes de movimentos sociais, portadores de bandeiras que vão além do estabelecido.

Menino doido, olhei em roda, e vi-me

Fechado e só na grande sala escura.

(Abrir a porta, além de ser um crime,

Era impossível para a minha altura…)

 

Como passar o temo? E diverti-me

Desta maneira trágica e segura:

Pegando em mim, rasguei-me, abri, parti-me,

Desfiz trapos, arames, serradura…

 

Ah, meu menino histérico e precoce!

Tu, sim!, que tens mãos trágicas de posse,

E tens a inquietação da Descoberta!

 

O menino, por fim, tombou cansado;

O seu boneco aí jaz esfarelado…

E eu acho, nem sei como, a porta aberta!

(José Régio, Libertação).

                           

3ª. VOZ – A VOZ POUCO AUDÍVEL DA FILOSOFIA DO ATO

        

         Num mundo assim conturbado, haveria espaço para uma ética fundada na responsividade e responsabilidade? Para uma ética em que o eu se faz eu na relação de reciprocidade dialógica com o outro, enxergado como consciência equipolente e não como concorrente diante das mercadorias expostas?

         A concepção ética de Bakhtin não valoriza o novo pela novidade, ele sabe que “no Tempo Grande nada desaparece sem deixar sinal, tudo renasce para uma nova vida” (Bakhtin, 1997, p. 66). “O novo não é, necessariamente, melhor e é talvez a verdade da ideia pós-moderna. Fabricar o novo pelo novo é estéril. O problema não está na produção sistemática e arrebatada do novo. A verdadeira novidade nasce, sempre, do retorno às fontes.” (Morin, p.46).

         Sem álibi na existência, pois não podemos dizer “não estou aqui”, somos sempre “evento em processo”, participante do “evento único do ser em processo de realização”, o que está para ser alcançado, que nos abrange e que nunca se completa porque é História. A responsabilidade perante o outro é também responsabilidade perante a História de construção coletiva e participativa do que “está para ser alcançado”, que jamais se alcançará porque os momentos vividos definem e redefinem a humanidade do homem que se poderá alcançar. Sempre processo, nunca não ontologia fixa e imutável. 

         Uma ética que tem precedente no movimento contínuo das palavras, que sendo passado retornam com a alma de seus usos para um uso novo que somente será compreendido se associado às condições de seu reemprego: se é da natureza da linguagem um retorno, é também de sua natureza um novo nunca antes dito, nunca antes presente, só agora enunciado na concretude do diálogo presente. Nada do passado morre, tudo do presente tem o peso da concretude, e tudo se renova no amanhã da nova enunciação.

         A responsabilidade/responsividade de cada ato perante o ato a que responde e perante o ato que lhe responderá, carrega um peso incompatível com a velocidade da construção do lixo: é preciso ir devagar; é preciso vagar. A resposta não é uma reação extática diante do mundo. A resposta nos transporta para o êxtase da construção poética do humano no humano. Trata-se de conceber a vida de outro modo; trata-se de desvestir-se dos hábitos de consumo para que o que está por vir sobrevenha para abrir espaços para um outro porvir.

Eu tenho uma ideia fixa: o porvir. E se não vir?

dirão os incrédulos. Não importa para mim sabê-lo;

o que importa é trabalhá-lo. E virá, há de vir.

Eis a grande certeza: depois da noite, o dia; depois do

inverno, a primavera; depois da obscuridade e do crime,

a aurora e o amor.

(Mário Jorge, Poemas, p. 55)

   

4ª. VOZ – A VOZ NUNCA SUBMERSA DA POESIA

 

         Somente se pode viver esteticamente uma ética assim fundada. Não uma esteticização consumista dos objetos e dos corpos. Trata-se mais de encontrar a palavra que liberte, trata-se mais de encontrar nos sonhos abordados o que ainda apontam para o futuro; trata-se mais de viver em êxtase sem se alienar; trata-se mais de viver sem culpas e desculpas, livres porque não subordinados ao que nos oferecem, ainda que carregados de memórias de futuro e de bandeiras. Entre a prosa e a poesia, viver o amor englobante de estarmos juntos nesta aventura de construir algo a ser alcançado, sabendo que o alcançado apontará novos futuros.

                   Nascimento da palavra:

Teve a semente que atravessar panos podre, criames

de insetos, couros, gravetos, pedras, ossarias de

peixes, cacos de vidro, etc. – antes de irromper.

 

Agora está aberto no meio do monturo um grelo pálido.

 

Não sabemos até onde os podres o ajudaram nessa

obstinação de ver o sol.

 

Ó absconsos ardores!

 

É atro o canto com reentrâncias que sai das escórias

de um ser.

 

Os nascido de trapo têm mil encolhas…

 

PS. No achatamento do chão também foram descobertas as origens do voo.

(Manoel de Barros, O guardador das águas III, p.11)

 

 

NOTAS

[1] Exposição em mesa-redonda do II EEBA, UFES, 12.11.2013

[2] Extraído de Walter Benjamin, Passagens, p. 158.

[3] Em palestra proferida na XI Conferência Estadual de Educação do SINTESE, Aracaju, 15.10.2013.

 

Referências bibliográficas

BAKHTIN, Mikhail. Para uma filosofia do ato responsável. São Carlos : Pedro & João Editores, 2010.

BARROS, Manoel de. O guardador de águas. São Paulo : Art Editora, 1989.

BENJAMIN, Walter. Passagens. Belo Horizonte : Editora da UFMG; São Paulo : Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2006

CERTEAU, Michel. A invenção do cotidiano. Artes de fazer. Petrópolis : Vozes, 1994.

JORGE, Mário. Poemas. Aracaju. Edição da família do poeta.

MONTEIRO, Benedicto. A terceira margem. Belém : CEJUP, 1991.

MORIN,  Edgar. Amor, poesia, sabedoria. Liboa : Instituto Piaget, s/data

RÉGIO, José. Antologia poética. Não vou por aí. Seleção e organização de Isabel Cadete Novais. Lisboa : Edições Quasi, 2000.

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.