Entre a pergunta e o texto

Não há dúvida de que a PUC do Paraná saiu na frente, aceitando em seu vestibular a linguagem de baixo calão que predomina na república bolsonarista. Como no governo tudo se discute à base do xingamento, do palavrão, do desafeto, nada melhor do que trazer este ambiente hostil à vida e ao convívio civilizado para o meio acadêmico, espaço próprio da reflexão.

Assim, o cocô dia sim, dia não foi parar na prova de Geografia de uma universidade pontifícia. Um respingo do mal estar entre o Pontífice e a imbecilidade que está no comando do executivo brasileiro.

Circula a questão pelas redes sociais. O cocô de Bolsonaro sobe ao mundo!

Ainda que considere as vantagens próprias para a vida brasileira que dizeres tais ganhem as páginas da seriedade de um vestibular, mostrando a distância entre a asneira real e geral e o futuro de um vestibulando, não posso deixar de registrar que as opções apresentadas na questão de múltipla escolha somente tem referência indireta com o texto oferecido à leitura. Trata-se da relação “cocô dia sim, dia não” e opção (c) de ampliação da coleta e tratamento do esgoto. Mesmo sem o texto, e somente com a questão, o vestibulando deveria marcar esta opção porque as demais são inadequadas. Mas as inadequadas são precisamente as ‘providências’ que toma o governo do cocô.

Como os vestibulandos são inteligentes, mesmo fazendo vestibular na República de Curitiba, perceberão que todas as opções erradas são precisamente aquelas praticadas.

Espero que algum estudante bolsonarista tenha errado a questão, e tenha seguido o pensamento de seu mito, assumindo como sua a imbecilidade de seu mito.

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.