Entre a esperança e a saudade.

Escrevo agora sobre saudade.

Desde que mudei de cidade esse sentimento me visita sempre: amigos, imagens, sons, silêncios, cansaços, caminhos, descaminhos, afetos, desafetos, gostos e principalmente conversas.

Aqui tenho estado muito sozinha. Não é que isso seja de todo ruim. Com a saudade aprendo todos os dias o que deve ter mais valor, e o que não. Inclusive isso de aprender se ressignificou, antes aprendia e pronto, agora cada dia construo novo olhar, novas formas de conseguir lidar com o que a vida oferece e tira.

E a vida não tira nada: é presente todo dia.

Sorriso de filhos, voz de mãe, olhar de amor, cabeça doendo, glicose alta, perda de peso, raiva, texto e depois ao final do dia um travesseiro que guarde todos os sonhos e pesadelos.  E no outro dia lá estamos nós de novo, mais velhos. Mesmo tendo ganhado tanto, nos habituamos à ingratidão de não reconhecer.

É verdade que isso eu já sabia, aprendi com meu pai ainda no modelo antigo de aprendizagem: ele me contou assim. Ensinava com as histórias mais divertidas, e com exemplos. Mas foi depois quando ele me trouxe a saudade, ai foi que aprendi que é construção diária. Têm dias que ouço sua voz cantando uma música ou outra do Roberto Carlos que passa no rádio. Tem dias que comemoro ou me entristeço com os resultados dos jogos do seu time de coração: ai, dragão! Tem dias que vejo seus pés nos pés e no sorriso maroto do meu filho quando diz: isso não é verdade! Lembro as pequenas e as grandes coisas, dos nossos embates duros e políticos na maioria das vezes, mas em como ele acreditava em mim, e isso me fortalecia. Ficava feliz com minhas ousadias: – você parece doida! E como injustiças, sobretudo com crianças, cortavam seu coração mole. Era um cara solidário, me fez assim socialista. E assim, todos os dias, tenho um pouco dele comigo: a presença física nas memórias afetivas.

Quando comecei a escrever esse texto, ia escrever sobre a saudade que o vídeo do depoimento do Lula me trouxe: tempo de altivez, de esperança, de pessoas mais felizes mesmo, por pouca coisa até: emprego, churrasquinho no fim de semana, uma cervejinha, um passeio, uma compra mais farta no final do mês, um puxadinho na casa, um carrinho melhor na garagem mesmo que parcelado em 50 meses, viajar nas férias, comemorar um aniversário com mais pessoas, fazer uma pós, quem sabe um mestrado ou doutorado, ver o filho na faculdade. E sonhar, como era bom sonhar. Poderíamos tudo.

Um governo solidário, um país solidário. Não socialista.

Essa saudade do que se foi é muito dolorosa, e pior quando até as lembranças vão sendo destruídas. Por isso pensei que gosto de sentir saudades do meu pai, e de tudo que está na minha antiga cidade. E pensando não entendi como posso então não gostar de sentir saudades do Lula?

Faço uma busca dentro de mim, me custa caro demais essa procura porque reativa tantos sentimentos. Escrevo como terapia, e ao final sei que não quero aprender a viver com saudades dele, porque essa opção é violência e destruição. Sei que ele está preso para não alimentar a esperança, as lembranças de outro tempo tornam-lhe maior a condenação e a pena.

Como podem ainda alguns querer provas? As pesquisas trazem convicções e provas suficientes. Não tem materialidade nas acusações? -A saudade não é material. Ou é? Como querer impedir que o pão não alimente quem tem fome?

Saudades a gente tem do que foi bom, porque alimenta nosso caminhar, mas também do que é impossível. 

Essa saudade que alimenta é amor, por isso embora quisesse meu pai vivo, diante da impossibilidade aprendo todos os dias a mantê-lo vivo em minhas memórias, de uma forma que o amor assuma uma nova roupagem.

Assim, vejo as pessoas, e também sou uma delas, que mantém Lula vivo não como saudade, mas como esperança, mas Lula não é saudade, porque é possível.

Lula livre! Lula presidente!

Professora, militante, escritora
Mara Emília Gomes Gonçalves é formada em Letras pela Universidade Federal de Goiás. Gestora escolar, professora, militante, feminista, negra. Excelente leitora, escritora irregular. Acompanhe-a também em seu blog: LEITURAS POSSÍVEIS.

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