Ainda que fisicamente distante, ainda que um Atlântico nos separe, estou comemorando o aniversário de minha mãe. Até agora, dificilmente trazia temas mais pessoais para este blog. Mas 99 anos de vida merecem a exceção. Quase um século de história.
Uma história que se inicia em plena 1a. Guerra Mundial, distante para o espaço físico em que nasceu e se criou: a Colônia Municipal no município de Santo Ângelo, no Rio Grande do Sul. Uma colônia de italianos. Desde cedo conheceu a maternidade: órfã de mãe, é a filha mais velha que tomará conta dos irmãos mais novos, junto com outros dois irmãos que tinham mais idade do que ela. E numa numerosa família de dez irmãos. Seu pai casa-se em segundas núpcias com nossa Nona que traz consigo mais 6 filhos e lhes nascem mais dois – os únicos irmãos ainda vivos. Uma família que chegou a ter 18 filhos numa mesma casa… Eram tempos diferentes daqueles de agora.
Já casada, viveu à distância a 2a. Guerra Mundial. Ela aconteceu longe de sua terra, já na cidade de São Luiz Gonzaga. Mas a distância não impediu consequências: a língua materna, o dialeto vêneto do italiano, deixou de ser falado. Os mais novos niunca os ouvimos falando italiano em nossa frente. Quando cresci, frequentemente os surpreedia no quarto, o casal falando italiano entre si, língua que abandonavam assim que percebiam qualquer presença. Hoje, minha mãe diz que a esqueceu…
A família que minha mãe e meu pai formaram não foi menos profícua do que aquela de seus pais: 10 filhos! Aprendemos a viver neste pequeno coletivo, sempre sob o olhar atento e amoroso da D. Maria. Ela não teve direito à escola, mas alfabetizou-se ensinada por uma afilhada que frequentava a escola! Sabia do valor do estudo, e por isso seu esforço, conjugado com o esforço de meu pai, era de que tivéssemos uma herança: o estudo. Estudo que para meu pai era já alto quando terminávamos o então ginásio, equivalente hoje ao fim do ensino fundamental. Os filhos não se contentaram com isso foram adiante, bem adiante. Com o entusiasmo do pai – que demorou a compreender porque fui fazer um mestrado para ser professor se já era professor da Faculdade – e com o apoio solícito da mãe. Não compreendiam o que estudávamos, mas sabiam que estudávamos: Direito, Administração, Ciências Contábeis, Letras, Medicina, Enfermagem e Engenharia. Todos nos formamos, mas sobretudo todos nos educamos em princípios éticos: nada do que não é nosso pode ficar conosco, se achou, procure o dono!; o caminho da religião lhes era essencial, ainda que não tenham conseguido que todos seus filhos os seguissem; o respeito pelos mais velhos, a obediência aos pais, e somente leituras proveitosas. Da infância, lembro ainda as broncas com as revistas (X-9 ou em quadrinhos, fotonovelas, etc). Que líamos de qualquer forma.
Praticamente todos saímos cedo de casa – com exceção do que chamamos de “segunda geração”, aquela dos irmãos mais novos. Nem por isso deixamos de estar próximos. É com esta grande família de filhos, noras, genros, netos, bisnetos e tataraneta que festaja hoje minha mãe seus 99 anos. Há de chegar aos 100, há de superá-los!
Parabéns por uma vida tão longa! E, sobretudo, muito obrigado pela presença constante, duradoura, muitas vezes silenciosa, mas sempre atenta e preocupada com todos nós.
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

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