Três categorias: ai de quem caia numa delas. E os critérios de classificação são os mais recônditos ou arbitrários possíveis. A se crer no jornalismo efetivamente investigativo de Jeremy Scahill (Guerras Sujas. O mundo é um campo de batalha, Editora Marcador, 2015), reuniões às terças-feiras no porão da Casa Branca são destinadas a revisar e atualizar a lista os elimináveis porque supostos terroristas. Para entrar na lista depende basicamente de três fatores: ser muçulmano, ser homem, estar em idade militar. O resto compete aos serviços de informação norte-americanos definir, desde que estes critérios de base esteja satisfeitos. Assim, qualquer um entra na lista. E se reside em alguma aldeia de Afeganistão, da Somália, do Paquistão, um drone devidamente acionado o procurará onde os serviços de inteligência ouviram dizer que por lá ele andou. Não importa quantos inocentes serão mortos, nem importa efetivamente se o suspeito de fato estava lá: importa agir contra o terrorismo com terrorismo! A doutrina de que o mundo é um campo de batalha, formulada por Bush e acompanhada por Obama – sempre a se crer em Jermy Scahill – é o berço do Estado Islâmico e do terrorismo globalizado, praticado tanto pelo fanatismo do EI quanto pelos países que lhe decretaram guerra sem fronteiras. Em nome do “bom combate”, pratica-se o mesmo tipo de combate. A torto e a direito. Ai de quem entra na lista atualizada a cada terça-feira, a lista dos elimináveis.
Engana-se quem imagina que a profissão mais antiga do mundo – a caça lhe é anterior, mas esta não é profissão e sim trabalho de subsistência -, a prostituição seria um critério de inclusão na classe dos indesejáveis. Obviamente também não gays, lésbicas e toda a comunidade GLBT; deficientes, loucos, doentes, velhos. Por mais indesejáveis que tenham sido na história (E la nave vá, lembram?), não são estes os indesejáveis. Indesejável é o excesso de gente no planeta. É indesejável que homens e mulheres continuem a procriar É indesejável que ocupem espaço. O melhor enunciado que ouvi sobre estes indesejáveis pobres foi proferido por uma esposa de alto executivo, classe média enriquecida: “estão aí a sujar o MEU planeta!”. Este excesso de gente indesejável simplesmente porque nasceram e não deveriam ter nascido foi o tema de Susan George (O Relatório Lugano, Boitempo, 2002). Também uma jornalista. Aliando dados estatísticos e ficção, imagina um encontro financiado pelos donos do mundo de 100 cientistas em Lugano (Suíça) para que apresentem caminhos para que o sistema de produção existente permaneça como tal sem esgotar definitivamente os recursos planetários. A solução proposta foi a redução do número de habitantes em no mínimo 2 bi e que fosse mantida a população num máximo de 4 bi (o livro é do início do século). Como fazer isso? Os cientistas propõem guerras localizadas (não globais a que se chegou depois do 11 de Setembro): no Iraque, no Afeganistão… enfim, guerras que eliminando os indesejáveis – a população excessiva do mundo – ao mesmo tempo poderiam transferir para os financiadores do encontro os recursos naturais existentes na lista das populações que cairam na categoria dos indesejáveis. Indesejáveis simplesmente porque nasceram, e ainda por cima nasceram em regiões de recursos naturais concentrados…
Como encontrar os descartáveis? O desenvolvimento da forma capitalista de produção chegou a um momento em que já não é fundamental a produção na esteira, mas a produção criativa, inteligente. Os trablahadores não só pagam a mais valia e não só empregram sua força física. Hoje empregam suas capacidades intelectuais: criatividade, liderança, organização, racionalidade, temperamento, emotividade. Tudo é explorado pelo capital. Bom, e quem não tem isso a oferecer? Também já se sabe há muito tempo que o próprio conceito de “exército de reserva” tão necessário à exploração do trabalhador nos primórdios do capitalismo industrial já foi ultrapassado pelo avanço do capital. Ele não dispõe mais de um exército de reserva, mas de bilhões de excluídos, todos disponíveis. O excluído de hoje nem reserva é; é um descartado. Descartado da produção, descartado do consumo. Vive por teimoso, muito mais lunpen do que exército de reserva. Como chegar a estes dascartáveis? Nada melhor do que descobri-los desde cedo e de uma forma aparentemente democrática e em benefício da melhoria de vida do povo. Apliquem-se testes de avaliação de larga escala. Os que não conseguem reter as informações que receberam na escola são os candidatos mais naturais a serem descartáveis. Houve até um ministros procedente das hostes da capital do império, Unger Mangabeira, que chegou a propor com clareza o fim destas avaliações da educação: os descartáveis continuariam a ter a escolaridade que merecem, sem qualidade. Os que surgirem – porque a natureza distribui injustamente inteligências dando joias aos porcos, isto é, fazendo nascer gente inteligente entre pobres descartáveis que frequentam as escolas públicas – destas avaliações com altos índices nos testes mereceriam uma escola especial que os tornasse utilizáveis por completo pelo sistema. Uma escola para os bons!!! O resto, que as avaliações mostrariam serem descartáveis, que fiquem onde estão porque os recursos para a educação devem ser dirigidos com acuidade por gestores que sabem aplicar recursos financeiros faturando enormes lucros. É disto que se trata. As avaliações são as primeiras inscrições daqueles que sendo descartáveis, se tornam indesejáveis e se reagirem de qualquer forma, fanática ou não, tornar-se-ão elimináveis.
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

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