Estava eu nas Jornadas de Literatura, promovidas sempre pela Universidade de Passo Fundo e a Prefeitura da cidade, conversando com Fábio Lucas. Ambos convidados pelo evento, descansávamos da jornada do dia conversando fiado. Eu pretendia continuar no remanso do descanso, mas Fábio me convenceu: vamos ouvir o Arnaldo Jabor (figura já proeminente, cronista do Jornal da Globo), convidado de honra. E então ouvi do Fábio uma definição de “Jabor, o crítico a favor”. Ele se referia aos tempos em que Arnaldo Jabor aparecia na TV, Jornal da Globo com sua crônica diária, em retórica exaltada, com ethos de crítica, fazendo elogios ao governo neoliberal do Farol Apagado de Alexandria, nosso imaginativo “príncipe dos sociólogos”, aquele presidente que só sorria quando estava caminhado à beira do Sena em viagem internacional.
Pois Arnaldo Jabor, depois de deixar de ser cineasta, havia se tornado cupincha do neoliberalismo, contratado pela já então poluída Rede Globo. E Jabor perorava elogios… Com ascos, deixei de ouvi-lo ou lê-lo em suas crônicas jornalísticas.
Hoje, chamou minha atenção o título de sua crônica com chamada de primeira página no Estadão: O sim, o não e o mesmo. Dei uma passada d’olhos no texto e me surpreendo com a personagem O Mesmo, que na crônica aparece como uma voz profunda que discute com Dilma… E descubro então que até o Arnaldo Jabor, o crítico a favor, tem poucas preferências pelo PMDB, aquele partido de um vice-presidente que deixa vazar seu discurso de presidente numa gravação enviada de propósito – ele sempre põe os pés pelas mãos e já é conhecido pela carta chorosa à Dilma porque ela não lhe emprestou o vestido para desfilar no carnaval como “Norma Constitucional”, entre outras coisinhas como empregos a apaniguados que não se efetivaram. Pois o defensor de FHC, o novo neolibeal, aquele que deseja o retorno do PSDB ao governo porque quer reescrever suas críticas a favor do governo, acaba oferecendo a melhor definição do PMDB que já li:
“- Mas, afinal, que é você [o Mesmo]?
– Sou uma espécie de PMDB transcendental. Não sou nem a burguesia nem a elite; sou a pasta essencial de que somos feitos. Sou a história fixa do Brasil. Tenho a grandeza da vista curta, a beleza dos interesses mesquinhos, a sabedoria dos porcos e dos roedores. Tenho essa sabedoria, enquanto vocês se gastam em esperanças. Eu não sou a mosca da sopa. Eu sou a sopa.” (grifos meus).
Gostaram? Pois até Arnaldo Jabor não quer o PMDB de Michel Temer. Obviamente o que ele quer, eu não quero. Mas quero também que o PMDB de Michel Temer, o temerário golpista, agora descortinado para sempre e registrado na história como traidor, vá para os quintos dos mais profundos infernos, para não mais enfernizar a vida dos brasileiros pelo seu fisiologismo que se move pela beleza dos interesses mesquinhos.
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

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