O mercado está contentinho, muito contentinho. A taxa SELIC foi mantida em 14,25%; os bancos continuam a cobrar os juros mais altos do mundo. E a reunião do COPOM deixa o mercado ainda mais contentinho: aponta que não baixará a taxa nos próximos vindouros meses, ainda que o próprio mercado esperasse uma pequena redução! Pois os serviços que lhe presta este governo ilegítimo são mais do que esperam. Assim submissos ao mercado, indo além de suas expectativas, é o que se deseja… Ali´s, também se deseja que noutros setores ocorra a mesma submissão, e por isso vem aí o que estão chamando de fim da Era Vargas, ou seja, fim da legislação trabalhista e fim da concepção de que o Estado deveria ser o “tertius” nas negociações a fim de salvaguardar direitos da parte mais fraca, no caso, os trabalhadores. Aliás, o Estado existe para isso: legislar relações sociais para que não se retorne à barbárie.
Contradizendo o andar lento, muito lento da história, eis que nossos golpistas desejam o retorno a antes de 1930, à República Velha e se possível, aos tempos do Brasil-Colônia, com a vantagem atual de poder escolher o colonizador. Alguém consegue supor que país colonizador escolheria nosso grande Chanceler?
Pois não foi preciso fazer ainda nada efetivo, além de aumentar o déficit orçamentário para pagar o golpe. Bastou realizar o golpe para que o mercado reagisse e ficasse contentinho. As despesas públicas aumentaram; há denunciados e corruptos no governo e na sua “sólida base paarlamentar”. Para mostrar que isso tudo não tinha a menor importância para o mercado, ele está satisfeito assim mesmo. E politicamente ainda dá um tapa de luvas nos “coxinhas” que foram às ruas pedir decência e menos corrupção (obviamente, entre os manifestantes, inúmeros sonegadores e até um médico hoje preso por corrupção desviando recursos de onde mais falta: a saúde).
A tudo reage bem a economia! A gente é que não sabia que a economia fosse tão volúvel. Afinal, os comentaristas econômicos nos fazem crer que a economia é tão exata quanto a matemática. Não é coisa alguma. Por isso ela se chamava “Economia Política” num passado não tão distante, ainda no meu tempo de graduação quando iniciei meu curso de Economia (de que desisti no terceiro ano).
Mas acontece que estes retrógrados não só querem o passado. Estão hoje desatualizados. Os nossos “Chicago’s Boys”, especializados na matriz do império decadente, precisam urgentemente de uma reciclagem no FMI cujos técnicos já constataram e afirmaram alto e bom som que ajuste econômico, ajuste fiscal e política de austeridade leva à rescessão, ao fracasso e à miséria! Também os dirigentes da União Europeia, particularmente de seu BCE, com o susto pela decisão dos britânicos no Brexit, apesar de o governo e o verdadeiro poder serem contra, percebeu e já afirmou que é preciso dar mais atenção às políticas sociais e não somente manter uma gestão em benefício do mercado financeiro. Dar atenção às políticas sociais na Europa significa retornar ao Estado de Bem Estar Social, que o neoliberalismo e a globalização enterraram com uma rapidez espantosa.
Enquanto na Europa estão pensando numa guinada para as políticas sociais, no Brasil trabalha-se no sentido inverso, tão inverso que até o legislado pode ser suplantado pelo negociado. A seguir este princípio “jurídico”, bem que as negociações entre o PCC e o atual ministro da justiça, ex-advogado do PCC, poderiam valer mais do que as leis. O acordado tem que valer mais. Também o acordado entre ladrão e vítima deve valer mais do que a lei, pois assim se economiza muito em delegacias e presídios para se obter o tão desejado superavit para pagamento dos juros da dívida que só cresce como tanto cresceu no governo neoliberal de FHC.
Os dias brasileiros serão difíceis, temerbrosos. Para o povo brasileiro. Mas o mercado continuará contentinho. Tão contentinho que Armínio Fraga nem quis ser ministro, porque gerindo os fundos de investimento ganharia na certa, enquanto que no ministério poderia ser julgado como incompetente por não alavancar a economia e só patrocinar os bancos. Infelizmente ele esqueceu que ganha-se muito ao pagar pelo golpe… Os deficits orçamentários estão aí para comprovar os lucros da “sólida base parlamentar”.
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

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