DONA MARISA LETÍCIA

Se aqueles que estavam à frente do Hospital Sírio Libanês desejando a morte de D. Marisa Letícia, numa manifestação sem precedentes da imbecilidade humana, estiverem agora cantando hinos de vitória e agradecendo o milagre obtido, então podemos todos arquivar no mais recôndito das gavetas disponíveis todo o sonho de humanidade que guiou a construção de civilização a que pudemos chegar, mas que está muito longe dos horizontes das possibilidades de outro modo de compartilharmos a vida neste planeta.

Infelizmente, o retrocesso mental produzido pela lavagem cerebral que todos os dias banha cabeças idiotizadas não nos permite mais esperanças com gente desta laia, perdida para sempre no seu obscurantismo desumano e que ao mesmo tempo invoca valores morais que não pratica – desde o não fornecimento de recibos de uma consulta médica até a mais grosseira apropriação do que não é seu, mas que julgam seu por direito de sangue e posição, como a construção de mansões em reservas florestais, mansões invisíveis para seus fieis servidores de prefeituras e estados.

Por que tanto ódio imbecil? Porque Dona Marisa Letícia materializa uma possibilidade que para eles deveria inexistir, que para eles estava para sempre sepultada: de doméstica à primeira dama desvela um percurso proibido e quem o trilha merece o ódio dos que ficaram para trás nesta corrida do sucesso individual e o ódio mais forte ainda daqueles que constroem o muro que separa o povo dos bens materiais que ele mesmo produz.

Primeira dama? Este é o lugar para “belas, recatadas e do lar”. Alguém poderá dizer que Ruth Cardoso era bela? E do lar? Mas ela como D. Marisa eram recatadas. Uma pose para fotos, vestida ao modo casual depois de três dias de preparo, é recato? Sim. Muito recato quando se trata de falar das mulheres de linhagem (quase sempre escondida, não só por primeiras damas, mas pela grande maioria daquelas que fazem brilhar o lar burguês da classe média alta).

No entanto, todos sabemos – inclusive eles – que D. Marisa não merece o ódio que destilam. E todos aqueles em que ainda resta humanidade lamentam hoje a tristeza de uma partida; a tristeza de uma ausência de mulher, mãe e avó; a tristeza de sabermos que se vai num tempo em que estava sendo perseguida diuturnamente, sem ter tido a alegria de ver as acusações serem rechaçadas; a tristeza de um homem que tendo presidido o país recebia, precisamente quando sua mulher se despedia da vida, o prêmio dado por aqueles que realmente têm dinheiro e se encontram em Davos: ter sido o presidente que mais lutou e teve êxito na destruição da desigualdade social.

Este é o motivo do ódio: toda renda distribuída ao trabalhador, seja através de salários, seja através de programas sociais que os incluam, é motivo de ódio de uma classe que se julga dona de todos os bens e que se julga por direito de herança uma raça distinta e superior. Daquela que diz “estes pobres estão aqui sujando o meu planeta!”.

D. Marisa Letícia será sepultada levando consigo este sentimento de injustiça. Continuará odiada porque seu marido lhe sobrevive! As forças do pensamento do mal agora se concentrarão a desejar que a tristeza o abata e o leve também.

Mas D. Marisa Letícia leva também o sentimento do dever cumprido. E será pranteada não só por seus familiares. Também por todos aqueles que acompanharam com apreensão sua agonia que não começou com o AVC, mas muito antes quando sua intimidade e até seu carinho pelos netos sofreu a devassa de uma justiça partidarizada e de uma imprensa desmiolada e criminosa.

Adeus, D. Marisa Letícia. Que outras muitas mulheres brasileiras se inspirem em seu percurso e percebam: outro mundo é possível.

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.