Domingo: em tempos de prisões arbitrárias, memória e poesia

MEMÓRIA

Com prisões arbitrárias de estudantes ocorrendo em São Paulo, um deles sendo preso somente porque disse ao policial que não era o líder da manifestação e que não havia líder – razão suficiente para o policial considerar um “desacato à autoridade”, nada melhor do que recordar um passado nem tão distante. Na voz de Eduardo Galeano:

Estamos no Luna quando Ary traz a notícia:

                – Suidicaram ele – diz.

                Torres contou por telefone. Foi avisado de São Paulo.

                Eric se levanta, pálido, boquiaberto. Aperto seu braço; torna a sentar. Eu sei que ele tinha combinado de se encontrar com Vlado e que Vlado não tinha ido nem telefonado.

                – Mas se ele não estava em nada – diz.

                – Mataram porque ele não sabia – diz Galeno.

                – A máquina está louca – penso, ou digo. – Devem ter atribuído a ele até a Revolução de 1917.

                Eric diz:

                – Eu achava que isso tinha acabado.

                Sua cabeça cai entre as mãos.

                – Eu… – se queixa.

                – Não, Eric – digo.

                – Você não entende – diz. – Não entende nada. Não entende merda nenhuma.

                Os copos estão vazios. Peço mais cerveja. Peço que encham nossos pratos.

                Eric me crava um olhar furioso e se mete no banheiro.

                Abro a porta. Encontro-o de costas contra a parede. Tem a cara amassada e os olhos úmidos; os punhos em tensão.

                – Eu achava que tinha acabado. Achava que tudo isso tinha acabado – diz.

                Eric era amigo de Vlado e sabe o que Vlado tinha feito e tanta coisa que ia fazer e não pôde.

(Eduardo Galeano. Dias e noites de amor e de guerra. p. 78-79)

 

POESIA

De tertúlia poetarum (p.44)

de tortura militum

libera nos domine

de nocte infinita

libera nos domine

de morte nocturna

libera nos domine.

(Paulo Leminski (O ex-tranho. SP: Iluminuras, p.44))

 

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.