Em abril recebemos a visita de minha mãe, provavelmente sua última visita aos filhos, netos, bisnetos e tataranetos que residem em Campinas. Aos 98 anos (fará 99 anos daqui a 60 dias), não terá mais condições físicas de enfrentar uma viagem de mais de 1.300 kms, vindo da região das missões (Santo Ângelo) no Rio Grande do Sul a Campinas, em São Paulo! Nesta visita, tomou no colo sua tataraneta Loreta! Acompanhou as brincadeiras do bisneto João. Os outros, filho, filha, nora, genro e netos somos todos adultos a nos revezarmos nos cuidados de nossa “Passarinha”. Aqui ela chorou porque não entendia muito bem que fazia visitas: temia que a estivessem carregando de casa em casa e não mais tivesse onde ficar permanentemente. Encerro as visitas: retornou para Santo Ângelo e para sua casa, junto à filha Cristina e o genro Olavo. Mesmo sabendo que datas são apenas momentos comerciais, fica aqui minha homenagem e meu agradecimento pela visita.
POESIA
Mas domingo é também dia de poesia e memória. Na poesia, por oportuno ser o dia, um poema sobre o destino a ser destruído pelas mães de hoje e pelas mães do futuro:
MULHER
(Mia Couto, Idades cidades divindades. Lisboa : Caminho, 2007)
Solteira, chorei.
Casada, já nem lágrima tive.
Viúva, perdi olhos
para tristezas.
O destino da mulher
é esquecer-se de ser.
MEMÓRIA
Como há um destino a mudar, nada melhor do que lembrar uma mãe neste dia. Uma mãe que é preciso lembrar em tempos sombrios do presente que se deseja não repitam tempos sombrios do passado. Então, para a memória ser reativada, a homenagem à mãe ZUZU ANGEL, que enfrentou a ditadura militar em busca de seu filho assassinado Stuart Angel Jones. Para lembrá-la e para homenageá-la nestes tempos que se aproximam, nada melhor do que ver o filme Zuzu Angel, de Sérgio Rezende. Num dia de alegrias comerciais, nada melhor do que lembrar antiteticamente o sofrimento impingido por golpes, militares ou jurídicos-parlamentares.
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

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