Domingo com “Tratado Geral das Grandezas do Ínfimo”

De Manoel de Barros, há que ir buscando poemas de livro em livro… e é tão difícil escolher um e deixar outro de lado! Tarefa mais ou menos ingrata, mas é tão grato lê-lo que vale a pena  ir buscar um e deixar outro para depois…

Miudezas

Percorro todas as tardes um quarteirão de paredes nuas.

Nuas e sujas de idade e ventos.

Vejo muitos rascunhos de pernas de grilos pregados nas pedras.

As pedras, entretanto, são mais favoráveis a pernas de moscas do que de grilos.

Pequenos caracóis deixaram suas casas pregadas nestas pedras.

E as suas lesmas saíram por aí à procura de outras paredes.

Asas misgalhadinhas de borboletas tingem de azul estas pedras.

Uma espécie de gosto por tais miudezas me paralisa.

Caminho todas as terdes por estes quarteirões desertos, é certo.

Mas nunca tenho certeza

Se estou percorrendo o quarteirão deserto

Ou algum deserto em mim.

Sobre importâncias

Uma rã se achava importante

Porque o rio passava em suas margens.

O rio não teria grande importância para a rã

Porque era o rio que estava ao pé dela.

Pois Pois.

Para um artista aquele ramo de luz sobre uma lata

desterrada no canto de uma rua, talvez para um

fotógrafo, aquele pingo de sol na lata seja mais

importante do que o esplendor do sol nos oceanos.

Pois Pois.

Em Roma, o que mais me chamou atenção foi um

Prédio que ficava em frente das pombas.

O prédio era de estilo bizantino do século IX.

Colosso!

Mas eu achei as pombas mais importantes do que o prédio.

Agora, hoje, eu vi um sabiá pousado na Cordilheira

dos Andes.

Achei o sabiá mais importante do que a Cordilheira

dos Andes.

O pessoal falou: seu olhar é distorcido.

Eu, por certo, não saberei medir a importância das

coisas: alguém sabe?

Eu só queria construir nadeiras pra botar nas

minhas palavras. 

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.