Os dois poemas selecionados para este domingo são de Poearte Navegar contra o vento cuja epígrafe geral já aponta que navegação prefere o poeta:
“Nenhum artista digno deste nome acredita hoje na trapalhada da arte pura, da arte como fim em si mesmo.” (Federico García Lorca)
Loucura a livre loucura
Amarrei a loucura a uma longa trela
e afoguei o sonho em ácido sulfúrico.
Sob o jugo calei a promessa mais bela
de efêmero devir eterno um ser telúrico:
meu barro a transformar-se num esplendor de estrela
ainda que me os ossos doam de ácido úrico.
Loucura a Liberdade drapejando ao vento
nem santos nem heróis apenas resistir
a única que vale a vida no momento
em que do que se chora se é capaz de rir.
Sereno ficará o estranho pensamento:
presa a uma longa trela a loucura a ganir.
Fabriquei-me ninguém um plasmado produto
morrido aos pés de mim o mais tosco espantalho.
Devoro editais de senso e eis-me impoluto –
mas é sempre na escolha que me sempre falho:
a estrela da loucura é esse astro que eu escuto
que me salta ao caminho e me foge no atalho.
Um carto primeiro de maio
Esta noite brilhou sol
nas terras da sombra triste.
Pássaros houve assustados
nas árvores empoleirados
que tudo tudo escutaram.
Esta noite houve clarões
nas colinas do teu corpo.
Ouviram-se prolongados
gritos e imprecações
de noctívagos alados
que tudo tudo calaram.
Esta noite deu-se um espasmo
que nos saiu das entranhas.
Alguns de nós serão mártires
outros terão que chorar.
Mas aqueles que hão-de vir
Hão-de rir!
Esta noite foi mais dia
houve somente alvoradas.
Nos cumes das mil auroras
há bandeiras desfraldadas.
Esta noite o mar foi fogo
a terra se incendiou.
Bem dentro de cada um
renasceram os vulcões
que nos livros de ilusões
se escrevia eram extintos
e que não tinha raiz.
Esta noite
foi a primeira noite verde
da nossa vida gris.
(José Soares. Poearte. Navegar contra o vento. Leiria : Magno Edições, 2001)
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

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