Domingo com o poeta português José Soares

Os dois poemas selecionados para este domingo são de Poearte Navegar contra o vento cuja epígrafe geral já aponta que navegação prefere o poeta:

Nenhum artista digno deste nome acredita hoje na trapalhada da arte pura, da arte como fim em si mesmo.” (Federico García Lorca)

Loucura a livre loucura

Amarrei a loucura a uma longa trela

e afoguei o sonho em ácido sulfúrico.

Sob o jugo calei a promessa mais bela

de efêmero devir eterno um ser telúrico:

meu barro a transformar-se num  esplendor de estrela

ainda que me os ossos doam de ácido úrico.

 

Loucura a Liberdade drapejando ao vento

nem santos nem heróis apenas resistir

a única que vale a vida no momento

em que do que se chora se é capaz de rir.

Sereno ficará o estranho pensamento:

presa a uma longa trela a loucura a ganir.

 

Fabriquei-me ninguém um plasmado produto

morrido aos pés de mim o mais tosco espantalho.

Devoro editais de senso e eis-me impoluto –

mas é sempre na escolha que me sempre falho:

a estrela da loucura é esse astro que eu escuto

que me salta ao caminho e me foge no atalho.

 

Um carto primeiro de maio

Esta noite brilhou sol

nas terras da sombra triste.

Pássaros houve assustados

nas árvores empoleirados

que tudo tudo escutaram.

 

Esta noite houve clarões

nas colinas do teu corpo.

Ouviram-se prolongados

gritos e imprecações

de noctívagos alados

que tudo tudo calaram.

 

Esta noite deu-se um espasmo

que nos saiu das entranhas.

Alguns de nós serão mártires

outros terão que chorar.

Mas aqueles que hão-de vir

Hão-de rir!

 

Esta noite foi mais dia

houve somente alvoradas.

Nos cumes das mil auroras

há bandeiras desfraldadas.

Esta noite o mar foi fogo

a terra se incendiou.

Bem dentro de cada um

renasceram os vulcões

que nos livros de ilusões

se escrevia eram extintos

e que não tinha raiz.

 

Esta noite

foi a primeira noite verde

da nossa vida gris.

(José Soares. Poearte. Navegar contra o vento. Leiria : Magno Edições, 2001)

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.