Domingo com Moacir Felix

Se há um mundo a contruir, outro aí está

e cumpre destruí-lo. Consruir, eu sei, importa mias

quando a vida é clara como o sol

maior que todos os outros instrumentos.

Mas só constroem os que partiram, os que se sobreviveram

à travessia em sal extenso, ou se redescobriram

desmesuradamente intatos nas praias

onde se alongam, profícuas pontes

entre o peixe cego e a flor dos montes.

E eu destruo. Erguendo o musgo e os esqueletos

de todos os meus verdes barcos naufragados,

eu destruo, destuo este vazio opaco

preso em mim como escafandro

com a mais que dolorosa impaciência

de quem não mais enxerga a imagem exata

para legar ao tempo um rosto inteiro,

liso de arestas e de covas.

Sinceramente, amigo, lamento ter que fazer a coisa pelo avesso

e entrgar-he apenas o meu negativo, a minha melancolia armada

como a janela dos povos oprimidos.

Que eu possa, ao menos, servir-lhe como prova ou testemunha

de que existe um mundo a destruir e força é destruí-lo!

(última estrofe de Um Poeta na Cidade e no Tempo)

 

Aula Ocidental

Não me pergunte por que,

que eu não sei, isto eu não sei;

sei que é coisa natural

um ter bem, outro ter mal.

Aprenda comigo a lei

da grandeza ocidental:

Deus fez tudo desigual,

quem fala inglês pra ser rico,

quem não fala pra ser mau.

Deus fez tudo desigual:

fez o rico industrial, 

o usineiro, o fazendeiro

que podem gastar dinheiro

sem pensar nesta besteira

de haver classe social,

pois sabem ser natural

terem eles alerias

quando o povo passa mal.

Deus fez tudo desigual:

pra ser pobre de doer

fez o magro favelado

ou o velho desgastado

que vê pouco e que lê mal.

 

O mundo vai melhorar,

lógico, vai melhorar,

mas para quê termos pressa

de fazer andar depressa

o que Deus quer devagar?

natureza, amigo,

quer se fazer respeitar,

e a natureza disse:

cada qual em seu lugar,

um nasceu com sua burrice,

outro nasceu pra mandar.

Não me pergunte por quê,

que eu não sei, isto eu não sei;

sei que é muito natural.

 

Assim mesmo, o operário

tem todasas liberdades

deste mundo ocidental,

pode até viver nos morros

com seus filhos, seus cachorros, 

ou sambar no carnaval.

(Sem ouvir os materialistas

que só falam no banal

dessa verdade inimiga

– que não se deve dizer

porque é feia e sem poesia –

de haver fome e haver barriga).

O rico tem este uso

melhorado do seu dia

por direito natural

e à luz de doutos conceitos

é a cristã filosofia

que fundamenta a certeza,

sua certeza principal,

de saber que a sua riqueza

– este dom da natureza  

que Deus lhe deu por sinal –

ele tem de conservá-la,

defendê-la contra o Mal.

Não me pergunte por quê,

que isso eu não sei, isto eu não sei;

sei que é muito natural.

 

Aprendeu, agora, amgio,

a grandeza ocidental?

 

 

 

 

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.