Se há um mundo a contruir, outro aí está
e cumpre destruí-lo. Consruir, eu sei, importa mias
quando a vida é clara como o sol
maior que todos os outros instrumentos.
Mas só constroem os que partiram, os que se sobreviveram
à travessia em sal extenso, ou se redescobriram
desmesuradamente intatos nas praias
onde se alongam, profícuas pontes
entre o peixe cego e a flor dos montes.
E eu destruo. Erguendo o musgo e os esqueletos
de todos os meus verdes barcos naufragados,
eu destruo, destuo este vazio opaco
preso em mim como escafandro
com a mais que dolorosa impaciência
de quem não mais enxerga a imagem exata
para legar ao tempo um rosto inteiro,
liso de arestas e de covas.
Sinceramente, amigo, lamento ter que fazer a coisa pelo avesso
e entrgar-he apenas o meu negativo, a minha melancolia armada
como a janela dos povos oprimidos.
Que eu possa, ao menos, servir-lhe como prova ou testemunha
de que existe um mundo a destruir e força é destruí-lo!
(última estrofe de Um Poeta na Cidade e no Tempo)
Aula Ocidental
Não me pergunte por que,
que eu não sei, isto eu não sei;
sei que é coisa natural
um ter bem, outro ter mal.
Aprenda comigo a lei
da grandeza ocidental:
Deus fez tudo desigual,
quem fala inglês pra ser rico,
quem não fala pra ser mau.
Deus fez tudo desigual:
fez o rico industrial,
o usineiro, o fazendeiro
que podem gastar dinheiro
sem pensar nesta besteira
de haver classe social,
pois sabem ser natural
terem eles alerias
quando o povo passa mal.
Deus fez tudo desigual:
pra ser pobre de doer
fez o magro favelado
ou o velho desgastado
que vê pouco e que lê mal.
O mundo vai melhorar,
lógico, vai melhorar,
mas para quê termos pressa
de fazer andar depressa
o que Deus quer devagar?
A natureza, amigo,
quer se fazer respeitar,
e a natureza disse:
cada qual em seu lugar,
um nasceu com sua burrice,
outro nasceu pra mandar.
Não me pergunte por quê,
que eu não sei, isto eu não sei;
sei que é muito natural.
Assim mesmo, o operário
tem todasas liberdades
deste mundo ocidental,
pode até viver nos morros
com seus filhos, seus cachorros,
ou sambar no carnaval.
(Sem ouvir os materialistas
que só falam no banal
dessa verdade inimiga
– que não se deve dizer
porque é feia e sem poesia –
de haver fome e haver barriga).
O rico tem este uso
melhorado do seu dia
por direito natural,
e à luz de doutos conceitos
é a cristã filosofia
que fundamenta a certeza,
sua certeza principal,
de saber que a sua riqueza
– este dom da natureza
que Deus lhe deu por sinal –
ele tem de conservá-la,
defendê-la contra o Mal.
Não me pergunte por quê,
que isso eu não sei, isto eu não sei;
sei que é muito natural.
Aprendeu, agora, amgio,
a grandeza ocidental?
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

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