Epígrafes
Digo, apesar de tudo, a sós comigo: sei porque escrevo; […]
Amanheceu. O mundo é verdade. Sim, sim, é palpável. (eugène ionesco, a busca intermitente)
também:
aprendizagem é a palavra que, ela sim, ramifica e desramifica uma pessoa; ela enlaça, abraça; mastiga um alguém cuspindo-o a si mesmo, tudo para novas gêneses pessoas. estas palavras são, elas sim, para pessoas que se autorizam constantes aprendicismos. modos. viveres. até sangues. aprendizar não é repessoar-se?
Para pôr paz
libélulas avoam danças
aranhas cospem tranças;
morcegos ralham noites
ursos linguam potes;
rapozas agalinham-se;
carochinha avoa voa
preguiça dorme à toa;
toupeiras entunam-se
grilos estrelam-se;
noites adescaem
estrelas agrilam-se
eu libelulizo-me.
Geadações & orvalhamentos
últimos dizeres de um sapo
antes de implodir-se
o sapo requereu licenças e falou:
segredo do rio são suas margens,
aperto delas nele
chama-se encaminhação.
saiba ainda:
é possível soprar vento
e ele gosta
embora ressinta-se de comichão.
vento é que faz borbulhas a mar
vento é que faz\ deserto transpirar
vento é uma liberdade mascarada de ar.
brilho cruzado de bichos
é uma florquestração.
para maestro seja sonho
– o etéreo não conhece fronteira
com nada. e sua.
suor de etéreo
alguns nominam de chuva.
revelo: dançar atrai pingos;
nuar
(que não é só estar para nudezes mas ainda ser nu)
também atrai gotas.
se olhada muito tempo
a hiena liberta gotas que adescaem de seus olhares,
assim haja uma semente líquida
para flores de sacudir sal.
todo olho é uma salina
e chorar alimpa mundos.
acontrário do escrevinhado
mundo não está perdiod:
antes carece de nitidez.
bichos e crianças sabem recriar mundos
usam um só minuto, tudo renascendo em dança
– haja uma fogueira.
fogo queima, sim, sinto.
mas em função de arreciclo
– tudo em aclarão. simples. simples.
Fogo aquece. aderrete. amolfadeia.
algazarreia. arreceia águas.
saiba mais: é possível cumprimentar água.
e ela gosta.
para aprofundo tacto sonhe
todo seu sono aguado. (para ajudas use chichi.)
queira afogar-se a ponto de âncora
e água lhe falará.
inundação é abraço de aquático
hermetismo. nem cabe grão.
de mão dada, grão com grão
assim você já é areia. ou terra.
– tudo em enraizamento. concreto. concreto.
terra aprende. aprende.
terra brota. amarrota.
terra espera. esfera.
terra acalenta. amamenta.
terra arreceia falta de águas.
enchegada hora
um bicho apetece-se para dizeres assim:
geadação é massagem
o mundo pescoçando-se a levar com ela.
orvalhamento é uma poesia da natureza
ela tendo outras, no porém.
geadação é proque mundo respira.
orvalhamento é porque bichos minúsculos
encarem-se de espelhos
para reencontro com gotas de beleza.
…
ainda antes de imploder-se
o sapo falou:
árvore é veículo para ambos:
orvalhação e geadamento.
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

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