Domingo
Porque é domingo, fito com mais vagar
o espelho e encontro
novos veios na face,
outros sulcos,
outras decepções dependuradas
nos cílios,
no domingo.
O irresistível avanço da calvície
e dos cabelos brancos, o desbotar
dos olhos verdes vejo no espelho
de domingo.
Caminho pela casa de pijama.
Faço planos de passear
no parque, de ver o filme imperdível,
de rever amigos esquecidos.
Acabo empanturrado de massa e caipirinha,
no domingo.
Porque é domingo, recordo o tempo
sem compasso, o eterno feriado
da infância.
Sinto um forte aperto no peito
convido Francisco Alves,
enquanto o domingo, desajeitado
paquiderme, senta-se nas minhas pernas.
Amar não tem relógio
Quanto tempo vai durar, pergunta
o Medo enrodilhado, e a Esperança
ri, criança sempre, e um tanto tola.
Não importa o tempo, ela acrescenta
ao riso, amar não tem relógico. Um
fragmento de instante sobre o leito
amarfanhado é bem mais longo que um
século debruçado sobre velhos livros.
Amar não tem relógio nem remédio.
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

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