Domingo com Charles Kiefer, Museu de Coisas Insignificantes

Domingo

Porque é domingo, fito com mais vagar

o espelho e encontro

novos veios na face,

outros sulcos,

outras decepções dependuradas

nos cílios,

no domingo.

 

O irresistível avanço da calvície

e dos cabelos brancos, o desbotar

dos olhos verdes vejo no espelho

de domingo.

 

Caminho pela casa de pijama.

Faço planos de passear

no parque, de ver o filme imperdível,

de rever amigos esquecidos.

Acabo empanturrado de massa e caipirinha,

no domingo.

 

Porque é domingo, recordo o tempo

sem compasso, o eterno feriado

da infância.

Sinto um forte aperto no peito

convido Francisco Alves,

enquanto o domingo, desajeitado

paquiderme, senta-se nas minhas pernas.

 

Amar não tem relógio

Quanto tempo vai durar, pergunta

o Medo enrodilhado, e a Esperança

ri, criança sempre, e um tanto tola.

 

Não importa o tempo, ela acrescenta

ao riso, amar não tem relógico. Um

fragmento de instante sobre o leito

 

amarfanhado é bem mais longo que um

século debruçado sobre velhos livros.

Amar não tem relógio nem remédio.

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.