DOIS LONGOS DIAS E OS PASSOS SEGUINTES

Vivemos uma terça e uma quarta-feira longas. Na terça ouvimos a jurista possessa Janaína Paschoal, enviada por Deus para derrubar 54 milhões de votos e impor à nação o programa neoliberal derrotado nas urnas. Invocou dos netos da Presidenta Dilma aos céus. E por míseros R$ 45 mil se prestou a fazer a acusação de crimes não cometidos.

Ontem uma sessão inédita do Senado: sem ausências, sem abstenções. Foram todos cumprir seu compromisso. Até o Estadão, em matéria assinada por Adriana Fernandes em edição especial sobre os 61 votos dos senadores afirma que “no período da interinidade, quando muitos setores políticos pediram benesses – que foram, em sua maioria, concedidas”, desvelou com se conquistou esta maioria folgada para dar a Michel Temer o cargo de presidente da república sem ter sido eleito para tal, apesar de saberem que não havia crime de responsabilidade. Tanto sabiam que votaram a favor de que a presidente recém afastada não perdesse seus direitos políticos, coisa que ficará a cargo do contemplativo STF, que terá então a oportunidade de renegociar os aumentos salariais ainda não concedidos. Temem o PSDB, o DEM e seu pequeno rabinho, o PPS de Cristovam Buarque, que Dilma se candidate ao Senado, por exemplo, em 2018. E puros de coração como são, não querem conviver sob o mesmo teto com uma “criminosa” reconhecida como tal por eles mesmos.

Ainda pretendo retornar, em outra crônica, à defesa de Dilma e aos ensinamentos que se podem extrair daquela longa sessão de senadores ausentes do plenário. Marta, a inefável candidata à prefeitura de São Paulo, não se deu ao trabalho, como juíza do tribunal de exceção, a ouvir a defesa. Espera-se que tenha uma boa resposta nas urnas.

Hoje gostaria de fazer um exercício de futurologia política, daquilo que está no horizonte:

  1. É preciso pagar a conta. Então os “remédios amargos” virão com pressa. Reforma previdenciária (só resta fecharem se a idade mínima para aposentadoria será de 65 ou 70 anos); reforma trabalhista seguindo o lema de que o acordado entre capital e trabalho se sobrepõe ao legislado (princípio que implicaria uma redução enorme das despesas públicas com o fechamento das instituições responsáveis por legislar, a Câmara dos Deputados e o Senado, e de quebra toda a justiça do trabalho. Seria uma baita economia!); a manutenção e se possível a elevação da taxa de juros para aproveitar as sobras das economias feitas pois afinal há uma enorme inflação de demanda, o povo anda consumindo muito como se sabe); a venda do patrimônio nacional restante não para pagar a dívida como disseram também no passado das privatarias, mas para enterrar o dinheiro nos altos juros aos bancos como já fizeram. Por fim, em 2018 recorreremos ao FMI de pires na mão como fez por duas vezes o governo FHC em seus estertores.
  2.  É preciso garantir o futuro. Para isto existe o STF. O Ministro Teori já autorizou a investigação de Dilma e Lula por “obstrução da justiça” pela frustrada nomeação de Lula para o Gabinete Civil. Afinal, passar a ter foro privilegiado como ministro é “obstruir a justiça” de Sérgio Moro, já que o STF não tem as mínimas condições de promover o julgamento de uma ação!  Agora, seu próximo passo será enviar o processo para a primeira instância de Sérgio Moro. E então, e somente então, este impávido e imparcial juiz decretará a prisão preventiva de Lula e Dilma. Afinal, o instituto da prisão preventiva existe para ser usado em circunstâncias em que o investigado possa criar obstáculos à ação penal ou venha a criar comoção pública (como uma iminente revolução) ou venha a praticar outros delitos (como o assassinato político cometido pelo Senado). Postos na cadeia preventivamente Lula e Dilma, a tranquilidade retornará à Lava Jato e ao contemplativo STF e ao eficientíssimo Conselho Nacional de Justiça, que tem feito justiça cega a Sérgio Moro. Este passo será de execução breve, talvez na próxima semana.
  3. É preciso encerrar as investigações. Cumprida a missão messiânica de Moro e Dallagnol, eles mesmos se encarregarão de esquecer qualquer investigação com base nas gravações de Sérgio Machado (que desapareceram por completo); não ouvirão Léo Pinheiro porque não querem escutar o que não deve ser dito; esquecerão as referências a Aécio Neves, a Geraldo Alkmin, a Michel Temer, a todos os corruptos deputados e senadores que, citados, não serão incomodados. O programa já estará cumprido: derrubar uma presidente eleita e prender Lula. Não apagarão a esquerda, porque esta sabe sobreviver calada e já deu mostras que mesmo com censura e perseguição ferrenha, continua existindo. Então, trata-se apenas de mantê-la sempre à sombra, ameaçada e amordaçada. E então se encerra a Lava Jato cumprindo os desejos de Romero Jucá, de Gilmar Mentes e de outros tantos interessados. Rodrigo Janot termina seu mandato na PGR, e este braço do golpe também sentirá a força que ajudaram a construir: há que economizar recursos e nunca mais se ouvirá falar de concurso público para procuradores…
  4. É preciso garantir a continuidade. Para isso, não falta a proposta de Henrique Meirelles de definir por 20 anos que as despesas sociais não podem aumentar, mesmo que aumentem as necessidades da população! Não importa que morram doentes (aliás, eles considerarão um favor); não importa que o analfabetismo cresça (eles considerarão uma garantia sobressalente de seu futuro); não importa que as universidades morram à míngua (eles considerarão que isso é necessário). Por longos vinte anos – a mesma duração da ditadura militar – teremos a duração da ditadura civil jurídico-policial que se implanta no país com arremedos de democracia, com eleições como também havia durante o regime militar.
  5. É preciso vender tudo com urgência. Este o programa neoliberal. Michel Temer já afirmou que não escaparão nem as creches! Agora talvez Serra seja bem sucedido e consiga o governo vender também os cemitérios, como ele já havia tentado como prefeito de São Paulo. Tudo será vendido. E o dinheiro? O gato comerá. Onde está o gato? No governo. O gato comerá como já comeu durante o governo FHC: vendeu, não pagou dívida alguma, ao contrário, aumentou-a, não construiu nada que o lembrasse. Onde foi parar o dinheiro das vendas? A gente não sabe, a Globo não informou! E daí?
  6. É preciso ajustar a linguagem. Michel Temer já avisou: não admitirá ser chamado de golpista! Logo, ajustemos nossa linguagem que os tempos não estão para peixes, só para tubarões. E reverenciemos o Excelentíssimo Senhor Presidente da República, dobrando a língua e os joelhos, que afinal já disse Janaína Paschoal, a possessa: eles são enviados de Deus. Com as bênçãos de Edir Macedo e Malafaia.

PS: E nestes dois longos dias, fiquei sem conexão! Para verem os que só enxergam defeitos no Brasil: até na Dinamarca há problemas!

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.