Textos de Arquivo VIII: Dois caminhos se opõem na educação
Nota introdutória
O primeiro livro de Paulo Freire que me caiu nas mãos foi Pedagogía del Oprimido, edição argentina da Siglo XXI. Meu exemplar é da 7ª. edição argentina (a 1ª. é de 1970). Ler Paulo Freire ainda era perigoso! O exemplar que tenho me foi ofertado pelo amigo Flávio Bettanin, em São Luiz Gonzaga, que com ele atravessou a fronteira, em 1972. Lembremos que o livro era proibido no Brasil. A primeira edição brasileira somente ocorrerá em 1974.
Em 1972 Corinta iniciou seu curso de Pedagogia; eu retornei ao curso de Letras (Licenciatura Curta, algo desconhecido pelas gerações atuais). Foi no ano seguinte que estudamos juntos “Extensão ou Comunicação?” (publicado pela Paz e Terra em 1971). E apresentamos nosso estudo para alguma disciplina do curso. Lembremos que o livro é produto do então exilado Prof. Paulo Freire, no Chile, trabalhando nos tempos de Allende com o pessoal da área de extensão rurral. Na minha leitura de Paulo Freire, ele produziu dois grandes grupos de livros: aqueles do calor da hora do próprio trabalho que dá sustentação à reflexão; e aqueles mais densos com o trabalho já consolidado e cuja reflexão prática-teórica faz avançar a teoria pedagógica paulofreireana. Comunicação ou extensão? faz parte do primeiro grupo (como Cartas a Guiné-Bissau); Pedagogia do Oprimido faz parte do segundo grupo.
O texto aqui compartilhado, extremamente “colado” ao livro que comenta inclusive na sua linguagem, quase um plágio, foi publicado no nosso jornal Opinião (AABB-Santo Ângelo), mas não tenho exemplar da edição. Mais tarde, acabou sendo republicado no jornal INFORMAÇÃO, de Ijuí, na edição de 20 a 26 de fevereiro de 1976.
Na época, jamais sonhávamos que um dia nos tornaríamos amigos de Paulo Freire e de Anita. Nosso primeiro encontro se deu no apartamento de Paulo Freira, em São Paulo, numa discussão de trabalhos conjuntos sobre a linguagem, tema que sempre apaixonou Paulo Freire (que foi professor de Português em Recife). Mais tarde ministramos juntos (Paulo Freire, Adriano Nogueira e eu) duas disciplinas no curso de pós-graduação em educação da Unicamp. Do primeiro curso resultou o livro Paulo Freire: trabalho, comentário, reflexão (Petrópolis, Editora Vozes, 1a. Edição 1990. Tradução para língua espanhola: Paulo Freire: una reflexión sobre la educación, administración y política en el Município de São Paulo, Brasil. Talca, Universidade de Talca, 1994).
O compartilhamento deste nosso já tão longínquo texto neste blog foi autorizado pela minha companheira e co-autora.
Dois caminhos se opõem na educação (Corinta e Wanderley Geraldi)
“Conhecer não é o ato através do qual um sujeito, transformado em objeto, recebe dócil os conteúdos que outro lhe dá ou lhe impõe.”
Muito se tem falado sobre a educação. O que-fazer pedagógico vem sendo colocado em debate, face às transformações que sofre a realidade. No Brasil, vivemos (ou sofremos) um clima de reforma do ensino, em busca de uma terminalidade, de uma formação de mão-de-obra, de técnicos de nível médio necessários ao desenvolvimento econômico nacional…
O homem, ser que transforma a realidade, foi sempre, no plano educacional tradicional, coisificado. Educando e depósito de cultura são sinônimos para a práxis da política educacional e, com raras exceções, na postura educativa de muitos “mestres”.
Este artigo não traz nada de novo; é, unicamente, o resultado de uma tentativa de apreensão dum livro lido: Extensão ou Comunicação?, de Paulo Freire, editado no Brasil pela Paz e Terra em 1971.
Numa postura tradicional, o “educador” tem sido um mero extensionista. E extensão associa-se semanticamente a estender, a transmitir, a entregar.
Manipula o extensionista com conhecimentos que apenas ele, que está por trás do muro, conhece ou pensa conhecer. E numa atitude tipicamente extensionista, entrega este conhecimento, deposita-o no “aluno-recipiente”. A atitude transforma conhecimento em “algo estático e acabado”. Ambos são objetos, o que conhece e transmite e aquele que “conhece”.
É lugar-comum encontrarmos objetivos como “persuadir o aluno a aceitar tarefas”, “levar o aluno a…” e outros.
Por mais que se possa acreditar nas intenções educativas de tais objetivos, força é reconhecermos aí uma atitude puramente extensionista. Extensionista porque quer persuadir, quer levar a, o que, em outros termos, poderia ser expresso como domesticar o aluno de tal sorte que ele aceite tarefas, cresça culturalmente. Crescimento este como entende o professor-extensionista: um acúmulo de informações devidamente catalogadas, que deverão estar devidamente arquivadas no cérebro do “recipiente”.
Há na extensão um equívoco gnosiológico: o ato de conhecer não é apenas “o de ter na ponta da língua, mas sim o de apropriar-se do aprendido, transformando-o em apreendido, com o que pode, por isto mesmo, reinventá-lo, aplicando o aprendido-apreendido a situações existenciais concretas”.
O homem é um ser da práxis. Só ele é capaz de refletir sobre si mesmo e sobre a sua atividade. O homem é porque está sendo, no e com seu mundo. Na atividade extensionista, o que vemos é um homem fora desse mundo “educado”, e que considera inferior ao seu, ao qual ele invade com os produtos de sua reflexão cultural: enche o “educando” de conhecimentos, transformando-o num memorizador desta sua reflexão cultural. Nega, assim, a própria cultura, pois esta é enquanto está sendo; é processo que dura porque muda, porque ao intercalar-se aponta par ao que virá substituí-la.
É por isso que a extensão é um caminho para a invasão. A facilidade comq eu a cultura lusa foi capaz de dominar o mundo então ocupado pelo nosso indígena foi, sempre, transmitida de geração a geração. O filho era o depositário dos conhecimentos de que seu pai já tinha sido também depositário. Sendo-lhe estendido um conteúdo, não houve superação desse conteúdo e sim sua simples guarda. Anestesiando o espírito crítico, a extensão é meio de domesticação. E se, estendendo, anestesia e domestica, também instrumentaliza a invasão.
Quer no campo de sua associação semântica, quer no seu “como” de encarar a cultura, a extensão é um equívoco que tem prejudicado a educação.
Para nós, educação é diálogo, na medida em que não é a transferência do saber, desde a sede deste saber até a sede da ignorância. O que-fazer pedagógico há de ser um encontro de sujeitos interlocutores que buscam a significação dos significados. Mediatizados pelo mesmo objeto, educador e educando são sujeitos cognoscentes que buscam, juntos, mirar por dentro o seu objeto de conhecimento para, a partir desta admiração, compreender a sua significação.
Educar é, assim, problematizar o homem que, em sendo homem, é ser inacabado que vive, em suas relações homem-mundo, criando este mesmo mundo histórico-social. A história humana é um tempo em que ela se vai fazendo também.
Não havendo um mundo acabado, educar não poderá ser entendido como colocar a personalidade do educando na forma previamente idealizada, como se houvesse essa forma humana, na qual devêssemos conformar os educandos, para viverem num mundo estático e acabado.
No mesmo processo dialético de transformar-transfomrando-se, encontra-se, também, o educar.
Por isso, uma educação como prática do diálogo, nunca poderá ser neutra. Nunca poderá dicotomizar homem-mundo. Há em conhecer-agir uma unidade dinâmica. O objeto cognoscível é percebido por sujeitos cognoscentes, e esta percepção se encontra condicionada pelos ingredientes da realidade. Objeto conhecido aponta para objeto não conhecido. O dinamismo do educar transformando-se num dinamismo de educar-se, de crescer mais.
O verdadeiro educador não separa em dois momentos distintos o seu ato de conhecer: um em sua sala de estudos, no seu gabinete; outro em que fala, disserta sobre este conhecimento para seus alunos, deleitando-se narcisisticamente com suas próprias palavras, ao mesmo tempo em que adormece a capacidade crítico-criativa de seus educandos. Fazer isso é fazer assistencialismo educativo, em que as dádivas são os conhecimentos estendidos.
O próprio educador, ao preparar em seu gabinete a aula, estabelece um diálogo com autores, com a visão de mundo destes mesmos autores e com a realidade. Em sua atitude seguinte, sendo extensionista, nega este diálogo, estendendo, apenas, o resultado do mesmo.
A postura dialógica é problematizadora. Se o educador problematiza, o educando também problematiza, pois o conteúdo, o objeto de conhecimento de ambos está relacionado ao mundo total. A educação, porque se realiza no jogo destes contrários, é duração; durando na medida em que transforma; a educação pode também ser força de transformação, num “humanismo” que vendo os homens no mundo, no tempo, mergulhados na realidade, só é verdadeira enquanto se dá na ação transformadora das estruturas em que eles se encontram coisificados, ou quase coisificados.
Extensão ou Comunicação?, ao analisar estes dois caminhos na educação, acusa e entusiasma. Faz repensar o que=fazer pedagógico, numa educação que não se reduza meramente à capacitação técnica, mas em esforço do homem em decifrar-se a si mesmo e a seu destino para superar as deformações que a realidade criada por ele, faz com ele mesmo. Educação capaz de permitir a transformação dessa realidade, que é um todo indivisível. Educação que leve à transformação do mundo, sem receio de transformá-lo.
Optando pelo diálogo, o educador compromete-se com o progresso que a transformação das estruturas poderá trazer. Para o autor, este é o verdadeiro que-fazer pedagógico. O restante é arremedo de educação. É tornar o homem objeto, depósito de uma cultura estática que, em sendo depósito, também é túmulo da cultura. Porque cultura sempre há de ser invenção e reinvenção. Há de ser dinamismo e não museu de cera. Há de provocar mudanças e não estagnação.
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

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