Do direito ao dever de votar

Do direito ao dever

As eleições de ontem – até pelo número de abstenções, votos nulos e brancos – mostra um percurso que estamos percorrendo perigosamente para a democracia.

Do direito ao voto, conquistado depois de muitas lutas e em momentos históricos diferentes de cada sociedade, cada nação, no Brasil descambamos para o dever de votar. Da alegria de um direito à tristeza de um dever que tem que ser cumprido.

Inúmeros fatores construíram esta caminhada na história recente do país. Na balança é preciso colocar o peso maior: os políticos, quer pela corrupção desvendada por inúmeras operações policiais que somente ganharam corpo nos últimos 12 anos quer pela deplorável mostra de falta de compromissos com a verdade e com os projetos defendidos de véspera, são eles, os políticos desta geração os maiores responsáveis pela derrocada da democracia e pela queda livre da confiança numa representação – paramentar ou executiva – capaz de se interessar pelo todo da sociedade.

A este peso enorme trazido pela ação desta geração de políticos, independentemente de suas afiliações partidárias, o pensamento de direita que jamais defendeu uma democracia participativa e que aceitava o voto desde que fosse o voto no que “deveria ser” contribuiu para o falecimento da alegria do direito ao voto. Através dos meios de comunicação, a direita foi semeando a desesperança para que emergisse um grupelho qualquer como “salvadores” da pátria desesperada: no campo jurídico (procuradores e seus juízes) e no campo econômico (uma FIESP rentista) e no campo político (um conjunto de nomes notoriamente “honrados”). Salvadores são sempre um golpe na democracia, qualquer que seja o gênero de “salvador”, de direita ou de esquerda.  

Recuperar o voto como um direito não será uma tarefa fácil nos anos que se aproximam. “A crise das esquerdas se alinha com a própria crise civilizacional que tende a se agravar em várias dimensões: ambiental, social, econômica, humana. O mundo do futuro próximo, dizem os economistas e analistas mais atentos, será um mundo sem empregos, com populações que viverão cada vez mais. Em contrapartida, a concentração de renda e riqueza é crescente. As democracias são cada vez menos legítimas e cada vez mais incompetentes em fornecer respostas aos problemas das sociedades”. (Aldo Fornazieri. Os Escombros do PT. Disponível em http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/Os-escombros-do-PT/4/36928)

Nos próximos dias surgirão inúmeras análises decretando o fim de um partido (o PT), o fim de um sonho popular (de distribuição da riqueza de forma menos abissal). As análises poderão estar erradas em seus detalhes e em seus interesses, mas estarão certas na tese básica.

No entanto, ao não analisarem os votos nulos e brancos e as abstenções, o pensamento de direita estará decretando seu próprio fim como via democrática de condução da coisa pública. Ao destruir o outro, perde-se a dimensão de si.

A direita no seu afã de enterrar o PT e toda a esquerda – o PT foi o partido que mais aglutinou as diferentes perspectivas da esquerda, embora não se possa dizer que se trate de um partido radical, antes pelo contrário – ela, a direita, não só impõe sua hegemonia que nunca perdeu, mas, sobretudo, destrói qualquer possibilidade de um mundo plural em que convivam controvérsias e projetos. O mundo do pensamento único é o mundo da ditadura. A ponte não é para o futuro, mas para a barbárie. Logo virá a força física (e não apenas simbólica) de que os pitboys que atacam até bebês por causa de suas roupinhas vermelhas são exemplos admitidos (e ocultos dos telejornais) e por isso podem se espalhar de alto a baixo, de norte a sul, de leste a oeste do país. 

Como ensinou Espinosa, uma sociedade de homens tristes se deixa dominar com facilidade. Foi isto que a política recente construiu no país: uma sociedade de homens e mulheres tristes.

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.