Dilma, por que você não emprestou o vestido para o Temer?

Passaram-se cinco carnavais, e nosso vice-presidente permanceu no ostrasismo porque queria desfilar no carnaval fantasiado de Norma Constitucional, mas a Dilma se recusou a emprestar-lhe o vestido. 

O PMDB e seu presidente nos brindaram com três episódios deprimentes: primeiro Eliseu Padilha pede demissão do ministério porque um apaniguado não foi imediatamente contratado conforme ele propôs. Sem qualquer discussão sobre capacidade técnica. Uma saída ressentida: não brinco mais se não posso apaniguar meus escolhidos… 

Depois, Eliseu Padilha dá uma entrevista ao Estadão (08.12.15, terça-feira) em que faz a definição do projeto político, econômico, social do PMDB. Eis a pergunta: “Ao consultar às bases sobre impeachment, Temer também está de olho na Convenção do PMDB de março? Eis a brilhante resposta do porta-voz do vice que quer ser presidente “confiável”: “Claro. Conforme os desdobramento de cada dia, ir adaptando as posições do partido”. Jamais uma definição do PMDB tinha sido feita com tanta clareza: somos fisiológicos, dançamos conforme a música, conforme a circunstância, vamos adaptando as posições, não temos posições… somos extremamente adaptáveis. Daí porque sua política é a do “toma lá, dá cá”, fundamento para os queixumes do terceiro triste episódio.

Temer protagoniza este episódio: escreve uma carta queixosa à Presidenta reclamando do que considera “grande política”: a negociação de cargos, de benesses, acordos e mais acordos, segundo os “desdobramento de cada dia”. Reclama da falta de presteza nas nomeações, reclama de não ter sido convidado para um encontro da Presidenta com o vice-presidente dos EEUU, reclama de picuínhas, mostrando quão “estadista” é aquele que quer assumir a presidência. Desculpas para defender abertamente o golpe que encerrará o terceiro turno.

 A imprensa bem posta até noticiou, mas logo fez desaparecer a carta… Afinal, estão todos torcendo para que Eduardo Cunha, assanhado por uma oposição ensandecida (Aécio, Álvaro Dias, Carlão Sampaio, etc…) ganhe a batalha do impeachment, suspenda já na Comissão de Ética qualquer investigação sobre suas mentiras e falcatruas. E cheguemos a um novo presidente menor do que a atual, mais rato do que gato (sem perder sua vocação gatunística e sem perder jamais o fisiologismo que caracteriza o partido que preside).

Dá para ser feliz com o que está por vir? 

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.