DILMA E SEU DIA DE PERGUNTAS CONHECIDAS E DE RESPOSTAS SABIDAS

Para além do brilho com que a presidenta Dilma Rousseff se expôs e expôs o golpe parlamentar executado na quarta-feira, com a cara limpa de quem não quis o diálogo desejado pelo corrupto parlamento brasileiro, que considera “diálogo” a queda de braço por cargos e comissões que ela bem conheceu nos tempos do Gabinete Civil e que para todos nós revelou a carta sentida de Michel Temer por não ver os pleitos encaminhados serem imediatamente atendidos –  faltando na carta apenas a reclamação de que Dilma não lhe havia emprestado o vestido de posse para ele desfilar no Carnaval como Norma Constitucional.

Como se sabe, nenhum argumento demoveria os senadores. Aliás, um deles depois da sessão de cassação do mandato presidencial disse expressamente que “todos sabem que não havia crime de responsabilidade, simplesmente não dava para continuar”. Então, de toda a encenação de perguntas e respostas, da não escuta dos argumentos de defesa (houve até uma senadora candidata à prefeitura de São Paulo que sequer se dignou a assistir às sessões de defesa, pois já estava irremovível em suas posições e não tinha tempo a perder já que em plena campanha eleitoral para retornar à prefeitura), há muito o que aprender com as respostas e perguntas da sessão de segunda-feira no Senado.

Todos sabemos que uma pergunta, qualquer que seja, cria um quadro de obrigações nas relações entre o que pergunta e o que responde. Este tem apenas duas saídas:

  1. Aceitar o quadro proposto e responder.
  2. Recusar a pergunta, e com isso recusar a obrigação que lhe impõe quem pergunta.

Mas o perguntador, que orienta as possíveis ações do perguntado, não está isento de responsabilidades: antes de tudo, imagina-se que esteja interessado na resposta (que supostamente desconhece ou no mínimo tem curiosidade em ouvir a forma com que a resposta é neste momento elaborada) e, como consequência, espera-se que na cadeia ininterrupta de fala e de ações, sopese a resposta dada como elemento condutor de seu passo seguinte (na fala ou nas ações).

Como todas estas regras foram violadas no Senado Federal, já que as decisões estavam tomadas antes das perguntas e antes de ouvir as respostas, acompanhamos uma encenação de diálogo e direito de defesa diante de juízes, ao bom estilo Sérgio Moro, que já formaram opinião e lhes basta encontrar um arcabouço jurídico fictício para justificar suas condenações. Neste caso, a condenação à morte política.

Por isso tudo, não fiquei o dia todo online a acompanhar a defesa inócua da presidenta Dilma. O resultado já era sabido. As perguntas já eram conhecidas; as respostas mais do que sabidas. Não há crime de responsabilidade, qualquer jurista de meia tigela sabe disso. Até Janaína Paschoal, a possessa. Até Hélio Bicudo, o rancoroso. Até Miguel Reale, o direitoso. Mas nas firulas, sempre se encontra um Augusto Nardes a mudar a exegese da legislação e senadores dispostos a fazerem com que tudo tenha efeito retroativo.

Neste andar da carruagem, desejando os golpistas, não há qualquer direito adquirido porque a lei ou sua exegese pode retroagir. Se houver embaraço, o sistema judiciário está à disposição para resolver a questão em troca do aumento de salários negociado no golpe, aumento que para os servidores do judiciário, em percentual surpreendente de 43% ainda não foi concedido por causa do jogo de cena do PSDB e do DEM. Mas será concedido, disso não tenham qualquer dúvida. O contemplativo STF o merece.

No entanto, conhecidas as perguntas e sabidas as respostas, sempre se aprende algo novo. No meu caso, aprendi com um senador analfabeto que Fernando Henrique Cardoso, tendo estabilizado o país (tão estável que ao final do segundo mandato estava de pires na mão pedindo empréstimos ao FMI e submetendo-se a suas orientações), decretara que não haveria mais crise internacional no capitalismo neoliberal. Que não haveria mais assalto à economia brasileira pelo rentismo que governa o mundo com suas falcatruas como vieram à luz do dia a partir de 2007/8, com uma crise de que o mundo ainda não se recuperou.

Pois saibam todos: não há futuro depois de Fernando Henrique; não há passado antes de Fernando Henrique. É assim que querem os saudosos do poder, os caras-limpas e de barba escanhoada, camisas sociais azuis ou brancas, todos “limpinhos” e sem mácula em suas gestões públicas, como bem o demonstram os desvios de Furnas em Minas e o tremsalão de São Paulo. Mas sobre estas coisas os procuradores da República de Curitiba não querem ouvir nada, investigar nada. Também a polícia não quer saber dos 400 quilos de pó no helicóptero caído. E a Globo fará questão de mostrar que nada disso existe. É alucinação dos bem informados.

Assim, por apenas R$ 45 mil, pagos à jurista possessa, o PSDB imporá ao país o seu programa recusado nas urnas. Que PMDB, que nada! Estes que aí estão na quadrilha do Planalto são pequenos. O PSDB “não rouba”, vende, não surrupia, transfere.  É movido à “ideologia”, não a “bolso”. O bolso sempre pode encher; a “ideologia” é insaciável em todos os sentidos e horizontes possíveis.

Os tempos que vivemos, os tempos que viveremos, deixarão em nós nostalgia do que poderia ter sido e não foi. Mais uma vez. Eles venceram. Eles vencem sempre. Às vezes, conseguimos vir à tona para respirar, mas logo, loguinho, eles aparecem para nos afogar. Como agora apareceram. E ficarão por 20 anos a dar crédito do projeto de aniquilamento dos programas sociais nos próximos 20 anos com aumento nominal no índice da inflação! É o preço que pagaremos pela audácia de termos posto a cabeça de fora. Só que a esquerda é como Medusa, reaparece. É um fogo que São Jorge algum apaga.

PS: Escrevi esta crônica na terça-feira, depois da defesa que fez Dilma no Senado Federal. Infelizmente fiquei sem conexão no mesmo dia.Publico-a agora porque seu tema permanece atual. 

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.