O governo que nos assola, orientado pelos banqueiros Goldfajn (BC), Trabuco (Bradesco) todos sob a batuta de Henrique Meirelles (BankBoston, hoje no MF), só tem no horizonte a transferência de riquezas para os rentistas (nacionais e os tais “investidores” estrangeiros). Na sanha e na ganância, nada escapa.
As destruições mais visíveis são a dos direitos dos trabalhadores: o teto da miséria decretada para a Educação e a Saúde; a reforma da Previdência; a reforma trabalhista (a terceirização já é lei); a reforma do ensino médio vedando aos filhos de trabalhadores o acesso a um ensino de qualidade transformado em preparação para o trabalho, e vem aí a reforma política introduzindo o voto em lista cujos primeiros lugares serão ocupados pelos atuais deputados de modo a não renovar jamais o Parlamento e salva os mandatos dos que votaram contra todos pelas benesses poucas recebidas no toma lá, dá cá.
Enquanto isso, noutra ponta do mesmo projeto de transformação do Brasil em produtor de matérias primas sem valor agregado, atua a chamada luta contra a corrupção, luta seletiva de salvaguarda das lideranças do partido de juízes, procuradores e delegados – o PSDB, como declarou explicitamente Deltan Dallagnol – destrói-se toda a veleidade de presença econômica no cenário internacional destruindo a Petrobrás, as grandes empreiteiras e toda a exportação de carnes (e portanto o setor de agregação de valores na pecuária brasileira e na produção de aves).
Mas há as comidas mais vagarosas, menos visíveis. Entre estas está a destruição dos Correios, uma instituição que já foi a campeã da confiança dos brasileiros. A Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos era superavitária, tinha dinheiro em caixa e estava prestando um serviço enorme à sociedade, incluindo pequenas empresas que usam sua logística para a entrega de mercadorias no comércio das encomendas pela internet (ecommerce), setor em crescimento e espaço de aparecimento de oportunidades para pequenos empreendedores. Mas havia dinheiro em caixa, e banqueiro não aguenta ver dinheiro em caixa que não seja em seus cofres (quer dizer, eles nem cofres precisam mais, tudo é via papel já que os bancos hoje emitem “moeda” a seu bel prazer através destes papeis que levaram à crise de 2007/2008 ainda persistente). Os rentistas querem ver “extratos”, não lhes interessa o lastro.
Pois o Correio brasileiro está capenga. Começou com o saque do caixa, alastrou-se com a não contratação de pessoal – contratar pessoal para a prestação de serviços à população é um crime de lesa-rentistas, tornou-se imoral e ilegal. Consequência: a entrega da correspondência e das mercadorias está atrasando cada vez mais. Primeiro nas periferias: as contas de telefone e os boletos para pagamentos – incluindo as de multa de trânsito – não chegam nunca, e aparecem sempre depois do vencimento, obrigando a população de baixa renda a pagar multas e juros mês a mês. Lucram as empresas com um “investimento indireto”, com a indústria das multas, graças ao péssimo serviço de entrega a que fomos arrastados nesta destruição dos Correios. Os remanescentes funcionários e carteiros não dão conta do serviço, mesmo que se esforcem para manter o nível de serviços a que os Correios tinham chegado.
Certamente este desserviço tem um objetivo: produzir na população uma revolta contra os Correios e a partir daí se justificar sua privatização porque tudo, afinal, está no balcão de negócios: os direitos dos brasileiros, a saúde dos brasileiros, a educação dos brasileiros, o patrimônio nacional dos brasileiros, o emprego dos brasileiros, o petróleo dos brasileiros, os minerais dos brasileiros, a água dos brasileiros. Por que não os Correios?
Tudo ao preço do fim de feira! Destruído o país, eles irão viver na Suíça? Em Mônaco? Em Luxemburgo? Nas Ilhas Britânicas? Em qual paraíso fiscal serão feitos os depósitos? Afinal, nem Serra é de ferro. Nem Aécio é impoluto. Até a Veja achou por bem entregar mais um boi de piranha antes da prisão de Lula, o maior líder popular que surgiu após a ditadura militar.
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

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