Descaramento: se a mídia pode, se o Chefe pode, toda a quadrilha pode

Os acontecimentos de ontem mudaram os pensamentos rotineiros de todos os brasileiros. Mesmo os aficionados pelo JN que interpretam o mundo pelas palavras de seus âncoras devem ter ficado assustados com as imagens de Brasília.

Em casa, a TV serve para ver filmes. Informamo-nos através da internet. Ainda que nela haja muito joio, é melhor acompanhar vídeos de anônimos que, presentes e usando a tecnologia disponível dos aparelhos celulares, acabam mostrando o que não mostra a grande mídia. Embora tenhamos que fazer aqui uma exceção: a Globo acabou filmando policiais usando pistolas e atirando diretamente contra manifestantes, sem estarem sendo encurralados ou estarem à beira de perder a vida. Não terão a desculpa que foi em defesa da vida como costumam dizer quando dos massacres que realizam nas periferias das grandes cidades.

Mas ontem os acontecimentos foram excessivamente fortes. Transitamos aqui entre o monitor do computador e a TV por assinatura, passando da BandNews para a GloboNews a cada vez que nos enojávamos… Até que a TV ficou ligada nem sei em que canal e abandonada na cozinha do apartamento.

Mas o tempo foi suficiente para ouvir, e repetidas vezes, a âncora – provável jornalista – dizer e repetir alto e bom som: os “baderneiros” como ela chamava, ou os encapuçados, tinham sido contratados pelas organizações que chamaram a manifestação para praticarem os atos de vandalismo que as imagens estavam mostrando.

Ora, independentemente deste vandalismo, haveria forças de segurança presentes na manifestação. E disto sabíamos todos! Incluindo as organizações que chamaram o ato!!! E sabemos todos que qualquer desvio no interior de uma manifestação provoca a reação violenta da polícia, com bombas de gás lacrimogênio e de efeito moral, com balas de borracha, com cassetetes e o mais que puder usar para “acalmar” na situação e garantir a “segurança” da manifestação e dos bens públicos. Ninguém, a estas alturas, desconhece esta reação. Aliás, desde que existem forças militares – não esqueçamos que estamos tratando da polícia militar – sabe-se que “se há uma coisa que repugna mais um militar que a desonra, como eles dizem, é a desordem” (Jonatham Littell, As Benevolentes, p. 67).

Pois não é que a organização da ato de repúdio ao governo Temer e contra as reformas antipopulares que insistem em concretizar o Executivo e o mais desmoralizado Parlamento da história do Brasil resolveu, segundo a Rede Globo, contratar “profissionais” – foi este o termo usado – para o vandalismo que ocorreu em Brasília. Sabem, os organizadores estavam interessados em criar um clima de tensão e de batalha campal para justificar – a torto e a direito – uma intervenção dura de uma ditadura civil (jurídica-midiática) ou uma ditadura militar. Na aposta que faz a Rede Globo, os movimentos sociais e a oposição popular ao atual governo desejam mesmo é o fim da democracia através do voto popular gritando por Diretas-Já… Realmente o ridículo ideológico em que caiu este jornalismo barato, mal intencionado, sensacionalista, mentiroso da Rede Globo não tem limites, é infinito.

A afirmação passada como “notícia” não resiste à mínima análise!!! Não disseram que foi o Lula que contratou os tais “profissionais da baderna” – mas não deve ter lhes faltado vontade – porque ficaria evidente demais a mentira, e mentira evidente não produz o efeito de verdade que toda mentira precisa produzir. Ou deixa de ser mentira.

Enojado, fiquei me perguntando: será que esta jornalista está lendo isso num “prompt” preparado por seus chefes e patrões, ou está dizendo isso de livre e espontânea vontade, num discurso de servidão ideológica de causar pena? Teria esta perspectiva nazi-fascista, ao gosto de um Goebbels, saído direto da cabeça desta desajustada âncora? Não sei o nome, nem quero saber!  

O que sei é que a Rede Globo de TV está desrespeitando o mínimo de inteligência que ainda possamos ter! E isso num canal pago! Imagine o que disse no canal público… E ludibriar o cidadão se tornou tão corriqueiro, tão natural – o jornalismo praticado pela Globo e por Veja fizeram escola – que um Ministro de Estado – vejam bem, estou falando de um Ministro de Estado! – teve a pachorra ludibriante de querer fazer passar como fato de ontem um incêndio ocorrido em 2005! Uma foto de um incêndio de um prédio do INSS, apresentado como se fosse incêndio em seu ministério…  Chegamos longe, longe em demasia. Em qualquer país do mundo hoje Osmar Terra já não seria mais ministro! Mas no governo de Michel Temer, se ele pode, toda a quadrilha pode!

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.