Depois do vexame, o susto da repercussão. Depois desta, o temor por um discurso

O dia 17.04.2016 ficará registrado na história não porque um processo de impeachment de uma Presidente foi admitido pela Câmara dos Deputados – admissibilidade é consequência do convencimento de que há suficientes indícios de crime de responsabilidade, competindo ao Senado o julgamento do mérito da questão – mas porque os deputados ocuparam os microfones oferecendo seus ‘sim’ a Deus, a igrejas [evangélicas],  a familiares, a seus herois, a movimentos atuais, a  instituições ou a acontecimentos vexatórios do passado. Também aqueles que disseram ‘não’ invocaram movimentos sociais, classes sociais e as deram como razões de seus votos. E aqui é inegável uma diferença entre ofertas e razões.

Dizer um ‘sim’ ou um ‘não’ numa votação desta magnitude depende da análise das denúncias, e esta deveria oferecer as justificativas do voto. Votos ofertados não são votos justificados. Até mesmo pessoas ideologicamente de direita, que pela primeira vez na vida foram a manifestações de rua, riam dos deputados e de suas oferendas. Ouvi alguém dizer que tendo 98% de tais votantes suas amantes, nenhum ofereceu seu voto aos serviços por elas prestados! Uma injustiça evidente!!!

Este foi nosso vexame maior e será a razão histórica do registro da data!

Depois disso, surpreendem-se as lideranças do ‘sim’ com a repercussão internacional do vexame. A imprensa, incluindo jornais ideologicamente comprometidos com os mesmos ideais dos líderes do impeachment, criticou a votação e apontaram que as razões legais para tal decisão eram no mínimo duvidosas! E vejam bem, não foram jornais ‘petistas’ que disseram isso. Aliás, foi tão forte a reação internacional que o Senador Aloysio Nunes correu para o aeroporto e viajou para a matriz de seu coração para dizer que não era golpe, mas uma decisão juridicamente fundada!!! Foi explicar-se junto a seus patrões.

Este foi o susto dos golpistas!

Uma semana depois veio o temor: a presidente ‘impeachvável’ faria uma discurso na ONU. Saiu o golpista vice-presidente, traidor reconhecido e assumido, já que vice-presidente, a dizer que chamar de ‘golpe’ a decisão que seguiu todo o rito – afinal, é preciso ser formal e ritualístico, não interessa o conteúdo – seria macular a imagem do país. A jornalista de direita Elaine Cantanhede, mais de casta do que de canto, ‘jabuticabeia’ o discurso antes mesmo de ele ser proferido e antes de saber o que será dito. Assim julgam os golpistas: antes do fato existir, já está pronta sua análise; antes das palavras serem ditas, já está construída sua compreensão.

E então levaram um tapa simbólico: a presidente lhes deu um exemplo de comportamento de uma estadista, qualidade que eles lhe negam. Tiveram que engolir em seco! Estavam errados, coisa que jamais reconhecerão, porque sendo deuses que tudo sabem, não erram. A presidente agradeceu apoios recebidos na ONU, e depois em entrevista coletiva para a imprensa internacional – a mesma que já havia repercutido de forma negativa  a votação na Câmara dos Deputados – expressou sua opinião sobre o processo, um direito legítimo, já que até ministros do STF, que são julgadores, também se consideraram no direito de opinar na imprensa, e opinaram sobre matéria a que poderão ser chamados para julgarem, e certamente não se considerarão suspeitos por já terem opinião formada!

Depois do vexame, depois do susto, depois do temor, que virá? Depois disso – ai de nós! – virão os valores absolutos aprioristicamente definidos: o bom, o limpo, o higiênico, a verdade, a beleza do lar. Tudo definido de antemão por estes sábios: Elaine CaSta- nhede (a moça da massa cheirosa), Michel Temer (o Joaquim Silvério atula), José Serra (futuro ministro das vendas), Eduardo Cunha ( o Honesto) , William ‘Pit’ Bonner (o Verdadeiro), Jair Bolsonaro (futuro ministro da injustiça e da tortura), Aécio Neves (o Cheiroso). Não teremos de que reclamar e seremos todos felizes para sempre.

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.