Depoimento de Lula: “isso vem ao caso”, Altíssimo?

Para escrever esta crônica, coloquei bem visível, de modo que quando olho o monitor enxergo também a representação do silêncio com o macaco tapando a boca! Então este será meu texto de boca tapada… e portanto extremamente respeitoso.

Ontem o Altíssimo – porque ele se tem por Deus e tem por profeta um procurador que se julga o novo Neemias -, o Sr. Juiz, aquele pelo qual têm os ministros do STF um respeito prudente, aquele pelo qual o Conselho Nacional de Justiça reza em cartilha garantidora das excepcionalidades, aquele que tem direito a excepcionalidades, segundo o Tribunal Regional da Justiça Federal de Porto Alegre, pois Ele mesmo, em pessoa, interrogou o ex-presidente Lula.

E qual não foi a surpresa: não apresentou uma prova sequer de que o réu efetivamente tivesse recebido em “doação propinosa” o tal tríplex do Guarujá ou sua reforma!!! Depois de mais de dois anos de investigação, pelas perguntas formuladas, não havia uma prova disponível… As perguntas medíocres que certamente uma Globo explorará à exaustão, referiam-se a datas, a conversas. Frequentemente perguntou por “opinião”, “o que acha”, como se na área do Direito o achismo fosse a regra básica. Bom, não é por achismo que agem, mas por convicção! Estava eu esquecendo!

Com todo o primarismo rasteiro, as perguntas tentavam formular implicitamente – quando qualquer ouvinte toma por explícito – algumas pegadinhas para encontrar alguma contradição na resposta de uma pegadinha e na resposta de outra pegadinha, ao estilo da variação de 2010 para 2011, ou 2012 para 2014, etc.

Algumas foram perguntas cômicas, como aquela que interrogava a razão pela qual o pedido de reembolso do já pago à Cooperativa ter sido realizado bem mais tarde, tomando como pressuposto que deveriam tê-lo feito quando da incorporação da obra pela OAS! Parecia desconhecer algo que qualquer comprador de imóvel conhece: os pagamentos já efetuados serviriam de entrada para a compra de qualquer outro imóvel – incluindo o famoso tríplex – que os credores, no caso D. Marisa Letícia e Lula, viessem a querer. E poderiam – a não ser que o novo Neemias e o Altíssimo o proíbam – até querer o tríplex e até pedir adequações do imóvel a seus interesses de compradores. Todos sabemos que uma construtora faria isso, porque afinal vive disso! Precisa de seus clientes, até uma OAS e seu honradíssimo diretor-presidente Léo Pinheiro.

Mas tudo se transforma em indício – na má leitura de Charles Pierce – quando a hipótese estabelecida não pode ser modificada por interesses mais ou menos próprios do que também em pragmática, área filosófica de Charles Pierce, se chama de “salvar a face”: formulada a hipótese, alardeada a hipótese com holofotes e purpurinas pela mídia, modificar a hipótese, como ensina todo o paradigma indiciário de investigação, seria honesto mas uma ‘vergonha’ midiática a que um profeta e um deus vingativo ao estilo do Velho Testamento, mas com os fulgores midiáticos da modernidade, não podem se submeter! A verdade agora não interessa, interessa não alterar a hipótese juntando “fulano disse”, “sicrano disse”, num diz-que-diz-que que envermelharia até as mais maldosas comadres.

Há outras perguntas que passaram a “vir ao caso”, como “o que queria dizer Lula” quando, levado ilegalmente, sob vara, a dar depoimento, teria afirmado que “não esqueceria os policiais que o prenderam” por ordem do Altíssimo e o sequestraram para depor – o que acabou acontecendo no aeroporto de Congonhas porque uma autoridade que respeita o cargo que tem não permitiu que o levassem para Curitiba como desejado. E como desta vez a pegadinha não deu certo para dar voz de prisão por “desacato à autoridade augusta” – outra pegadinha formulou o suposto “Pai Celestial” Não importa a ordem em que as pegadinhas aconteceram… não deixam de ser pegadinhas para tentar um “desacato”. Foi aquela pergunta sobre o que queria dizer Lula quando disse que poderia, no curso da história, mandar prender autoridades que não cumprem com a lei e usam do abuso de autoridade, referindo-se aos augustos senhores da Lava Jato… Disse isso não sei quando, mas os ouvidos de um Torquemada são tão longos quanto a Vara do juiz Sérgio Moro. Pois queria saber o que queria dizer o ex-presidente, porque este “querer dizer” é uma grande prova de que Lula é o proprietário do tríplex do Guarujá e mais, que o ganhou como propina da OAS, como no diz-que-diz-que Léo Pinheiro, depois da pressão psicológica e depois de muitas delações, afirmou sem provar que “Lula é o dono do tríplex”, seguindo o script que recebeu para ganhar o prêmio desejado… Pois Torquemada tudo ouve e sobre tudo quer explicação! Porque na Inquisição que não foi santa, um desabafo em momento de infortúnio é prova indicial da hipótese de propriedade e propina jamais abandonada para não fazer feio na imprensa!!!

Claro, sua Excelência proferirá sentença condenatória! Porque não se trata de buscar a verdade, mas de destruir uma liderança incontestável. E liderança não só nacional, para desgosto do Altíssimo.

Chega. Acabo de olhar para meu “macaco de boca fechada” que não esqueci enquanto escrevia esta crônica sem faltar com o respeito às provas apresentadas que Luís Nassif chamou de meros traques. Embora não se possa dizer que força-de-expressão sejam compreendidas, aposto com Luís Nassif na intelegiência para compreender ironias! 

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.