Delegados e procuradores brigam pelas telas da TV

A associação entre a investigação de crimes e a mídia através da qual antecipadamente se julga e condena, mesmo quando a investigação não passa de uma citação do nome por algum criminoso somente poderia dar no que está dando: o protagonismo midiático é mais importante que a investigação em si. Que o diga Dallagnol e adjências. Ele não se aguenta pregando somente nas igrejas e se comparando a profetas do Velho Testamento. Precisa aparecer na imprensa, sem provas, mas com power point acusatórios, com sua firme convicção.

Pois o protagonismo chegou às barras da justiça! Procuradores, ciosos das possibilidades de aparecerem nas telinhas de TV Globo estão na justiça reivindicando que somente eles podem discutir e fechar acordos de delação premiada. Não lhes basta ter a palavra concordando com encaminhamentos de delegados de polícia. Eles é que, sendo titulares da acusação, são os donos da delação!

Delegado que anda inventando protagonismo que se retire para o ostracismo. Não há espaço para eles, porque os dallagnois todos precisam de minutos de fama.

Esquecem procuradores e o procurador geral que delegados investigam também outros crimes não tão glamorosos como o crime da corrupção petista (que outras não se investigam por serem jurídicas e justas, até a compra de decisões sobre sonegações deixou de ser investiga). Assim, ao quererem somente para si os holofotes da TV Globo, os procuradores estão mostrando que estão mais interessados no protagonismo midiático do que na investigação em que supostamente estão envolvidos por dever de ofício.

Gostaria de ver um procurador destes ávidos por holofote fazendo plantão permanente nas delegacias de homicídios, de crimes contra o patrimônio, de repressão ao tráfico de drogas, todos atentos para conseguirem, como procuram conseguir os delegados, que parceiros presos indiquem seus cúmplices garantindo sigilo para não serem mortos no primeiro dia de prisão! Penso que isso não lhes interessa, porque a violência que atinge o cidadão comum não interessa aos procuradores. Como também não lhes interessa a sonegação de impostos (desde o médico que cobra mais 30% se o paciente pedir recibo até a apropriação indébita por grandes empresas que recolhem a contribuição previdenciária de seus empregados mas não recolhem aos cofres da Previdência, garantindo assim seu déficit). Também não lhes interessa os crimes contra e economia popular: em certos setores a oferta de 90% de desconto, como em farmácias, significa que há a cobrança exorbitante por produtos… mas isso não é crime, é mercado, seu imbecil.

Assim, ríamos todos dos processos em curso na justiça para que declare delegados incompetentes para negociarem com bandidos comuns delações premiadas. O combate ao crime não interessa quando não dá holofotes. Pobres delegados que terão que se haver com a mesma imprensa que reclamará maior rapidez e maior eficiência no combate ao crime e à violência.

Ainda mais agora, que portar garrafas de vinagre se tornou prova de intenção de violência de manifestantes que protestam contra o governo! Mas nenhum procurador denunciou os agressores de um trabalhador que buscava sua namorada no emprego! Isso pode, não pode mesmo é vinagre!!!! Os procuradores estão começando a cair no ridículo!

Quando o protagonismo vale mais do que a investigação criminal, a sociedade do espetáculo passou a dominar todos os setores da vida social.

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.