Quando você arma uma arapuca para pegar pombas, pode acontecer o milagre de engaiolar um sanhaço de penas azuis. Milagre porque aquelas comem sementes, estes comem frutas.
Pois a arapuca está apanhando sanhaços azuis, pássaros limpinhos. De alto voo. Quando estes milagres se dão, há evidentemente um modo de agir bem intencionado: abre-se a arapuca, deixa-se o pássaro voar, voar, voar.
Arapucas boas são delações verdadeiras, aquelas que mostram o uso de dinheiro de empresas contratadas por estatais que recuperam suas doações elevando seus preços em serviços prestados, burlando licitações e outros caminhos desviantes. Bom, nestes casos e dependendo para quem não há crime, como ensinou José Serra, em 2014, quando chamado, antes das eleições para o senado, para depor como testemunha no tremsalão. Ele declarou à imprensa “as empresas combinam preços, isso não é um problema” – declaração publicada no Estadão. Logo foi dispensado de testemunhar antes das eleições, reagendando o encontro para depois de eleito. Investigadores bons e generosos são estes; imprensa boa e generosa é esta, que não ‘escandaliza’ uma afirmação como esta, esquece-a…
Delações são verdadeiras quando envolvem aqueles a que se tem ódio por questões de classe social. Só há ladrões num e único partido; numa e única posição. Ricos não roubam porque não precisam. Apaniguados de ricos não roubam porque são convidados da riqueza, são o brilho da riqueza. Mas para dar conta do ditado de que há gente menos boa em todos os lugares, em todas as profissões, em todas as agremiações, elege-se um boi de piranha para entregar aos sedentos manifestantes do MBL e do Vem para a Rua. No caso presente, escolheram um homem-bomba, Eduardo Cunha. O problema agora é como silenciá-lo, mas sempre se dá um jeito.
Mas há outros tipos de arapucas boas, aquelas técnicas que apontam para erros contábeis (que não significam desvios de recursos nem enriquecimentos ilícitos, mas ferem as susceptibilidades bicudas de Janaínas, Hélios e Migueis). Cassa-se o mandato de uma presidente eleita por 54 milhões de votos por erros contábeis, por atrasos de poucos dias no pagamento a um banco estatal com recursos do Estado. É empréstimo não autorizado gritam Aécios e Anastasias, entusiasmados e anestesiados pela visão do exercício do poder, ainda que em mandato tampão. Um tampão para estancar a sangria, como ensinou Romero Jucá, o breve ministro do Planejamento!
Mas há péssimas arapucas, aquelas delações mentirosas, que fazem crer que políticos limpinhos, limpinhos, interinos, que internaram recursos em suas contas, teriam agido de modo ilícito, com abuso de poder e outros quejandos previstos no Código Penal. Mas nestes casos, são depósitos legais, nada é ilícito aqui. Porque até um delator está sujeito a enganos. E o engano é dizer que tudo vem dos recursos obtidos pelo processo da elevação de preços em serviços prestados pelas empresas a orgãos ou empresas do Estado. Afinal, estas prestadoras de serviços têm lucros, e abrem mão destes lucros para fazerem doações a políticos sérios, limpos, efetivos e interinos. Quem vai separar os dois caixas das empresas, dizendo o que é dinheiro limpo e o que é dinheiro sujo serão os delegados, os procuradores, os juízes e os ministros do STF: Gilmar Mentes e Teori Zavacki terão papeis relevantes nesta diferenciação necessária. Para salvar a ordem pública. Para salvar dedos e aneis. E para afastar perigos e maus exemplos.
Moro, mande prender o Lula logo, pare com esta agonia: afinal ele visitou 111 vezes o mesmo sítio, logo ele é dono do sítio; ele e mulher olharam um triplex, não gostaram e a construtora reformou, logo ele é dono do triplex. Lulinha fez negócios escusos; logo Lula fez negócios escusos, não precisa prender o Lulinha não, prenda o Lula; o compadre do Lula foi a uma festa, logo Lula roubou; Zé Ninguém apertou a mão de Lula, sujou-se: precisa ser preso para limpar o país porque Zé Ninguém é ladrão. Há razões jurídicas em excesso para prender aquele a que chamam, em certos corredores e delegacias, de Nine, numa demonstração de equilíbrio e inexistência de preconceitos.
Teori, mande prender a Dilma, os senadores do tal PT, os deputados do tal PT. Acabe com isso de uma vez por todas. Antes que algum ministro falante do STF vaze alguma coisa e eles consigam esconder os mal feitos! Para que tanta demora, se o fim do filme já está decidido antes de qualquer investigação? Estes arremedos formais é que nos fazem burocratas, demorados, ineficientes. Então, trata-se de abolir estas formalidades cartoriais.
Mas, por favor, não deixem a arapuca pegar sanhaços. Só pombas. Sanhaços que caem na arapuca do poder, libertem imediatamente que foi engano, foi mentira, pura mentira destes delatores inconsequentes. A verdade de uma delação premiada não resulta de investigação, mas resulta do “quem” é delatado. Se é aquele que delatado deve ser, é verdadeira; se delata o que não deve ser delatado, é mentira. Fácil, fácil. Até uma criança resolve este problema ‘matemático’. E a matemática é uma ciência exata, dizem os não matemáticos.
A gente não aguenta mais delações premiadas mentirosas e delações premiadas verdadeiras. Cansamos. A imprensa precisa noticiar fatos positivos, como o apoio de 11,3% a Temer (não a rejeição de 88,7%). Precisa noticiar que há expectativa de que haverá expectativa de que a expectativa de ações do governo interino melhorarão a situação econômica, darão emprego aos desempregados, farão ajuste fiscal (política que nem o FMI e nem Banco Mundial defendem como modo de recuperar a economia global), manterão as bolsas-empresário, diminuirão impostos e aumentarão a presença do Estado na saúde, na educação, na segurança. Sem recursos, obviamente, porque estes devem ser canalizados para os bancos, como quer o mercado. São estas boas notícias que queremos ler na imprensa, não mais vazamentos, gravações, delações. Destas coisas, já enjoamos.
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

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