De volta às ruas: Nenhum direito a menos

Ontem, quase apanhei porque mantive meu dia de quase-folga, quando publico textos de arquivo que me dispensam do trabalho de escrita, selecionando, no caos político em que estamos vivendo, um tema – que necessariamente cala outros – para comentar.

Ontem também quase apanhei porque me exigem um pedido de desculpas junto aos professores, por causa da crônica “Multidão de professores nas ruas… na Argentina”, em que afirmei ser a maioria dos professores brasileiros um tanto “a-política” que sequer entra na luta quando as minorias brigam e conseguem benefícios para todos. Ontem a maioria entrou.

Mas ontem, apesar de tudo isso, “lavei a égua” como se diz no Rio Grande do Sul. As ruas voltaram a ser tomadas pelo povo! E na manifestação não havia babás uniformizadas empurrando o carrinho do bebê para os patrões baterem panelas e gritarem palavras de ordem chamando o país à ordem que sempre teve: a do privilégio dos ricos e a miséria do resto… Esta é a ordem desejada pela casa-grande.

Ontem também soube que o Banco Itaú é um dos grandes devedores da Previdência!!! Apesar de seus lucros fabulosos e de seu crescimento sem fim, apesar de seu financiamento a instituições sociais, o Banco Itaú não cumpre o mínimo. Ajuda a produzir o suposto déficit da previdência para garantir a degola da aposentadoria.

O projeto de Reforma da Previdência somente poderia vir dos gabinetes escrotos do centro do pensamento neoliberal brasileiro. Os acólitos do capital financeiro – Henrique Meirelles à frente – extorquem da população o mínimo de sobrevivência para tirar dinheiro sujo de sangue e fome para seus patrões! Nem idosos e deficientes escapam.

Eles se pensam donos do capital, como pequenos empreendedores que vendem sanduíche na praia ou que criam uma lojinha virtual que fatura uns R$ 200,00 por mês. Acham que são “patrões”, que são “independentes”, que são “capitalistas”. Não são!!! Vivem de seu próprio trabalho, logo são trabalhadores como aqueles outros de carteira assinada. E vão requerer suas aposentadorias que não virão com a Reforma que apoiam.

Mas os professores e os trabalhadores, com suas lideranças, ainda que não levem a maioria para as ruas, lavaram a alma da gente ontem. Enquanto as ruas eram tomadas por pessoas que trabalham, o presidente usurpador discursava dizendo que a “sociedade quer as Reformas”. Quem é a sociedade para Michel Temer??? Seus sócios no avanço sobre a coisa pública? Parece que trabalhadores – que pagarão o pato amarelo do Skaf denunciado por corrupto – não fazem parte da sociedade. Explique para qualquer trabalhador o real sentido da proposta de Reforma da Previdência, sem manipulações: será que algum vai se dizer a favor?

Ora, é que “sociedade” para o governo exclui os trabalhadores, aqueles que pagarão a conta pela “sociedade”…

Os bem postos e bem pagos pregam: Sejamos “karnais”: ouçamos os gritos dos pagantes e os sussurros dos palacianos. Fiquemos “neutros” porque a neutralidade permite a análise fria e “científica”. Mas a neutralidade não faz avançar, mantém o status quo. Pois sejamos o inverso: VIVA A RADICALIZAÇÃO que se manifestou ontem – Nenhum direito a menos!!!

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.