Da escola culpada à escola ocupada

Acostumamo-nos a ouvir a imprensa bem posta, isto é, a imprensa familiar e reacionária brasileira, dizer alto e em bom som que os problemas estruturais de desemprego, próprio da organização do capitalismo financeiro, deveriam ser resolvidos individualmente com o preparo dos trabalhadores para enfrentar o mercado de trabalho. Obviamente, com raciocínios que somente a ideologia neoliberal consegue produzir, estes jornalistas e comentaristas transformavam uma questão estrutural em uma questão individual. Cabia ao trabalhador retornar à escolaridade profissional para se tornar um trabalhador “flexível” capaz de realizar inúmeras tarefas em inúmeras áreas, para enfrentar o mercado de trabalho que exige cada vez mais a especialização! 

E neste contexto, a escola foi tratada como culpada por não preparar adequadamente seus estudantes para se colocarem na vida, terem um tipo de inclusão, fosse ele qual fosse. Note-se o emprego de expressões de guerra: enfrentar o mercado de trabalho. Enfrenta-se um inimigo. O mercado é, portanto, um inimigo a ser enfrentado… e ao mesmo tempo é o deus regulador das relações sociais. Somente um raciocínio assim tortuoso pode, ao mesmo tempo, tratar a mesma coisa como inimigo e como solução para todos os problemas.

Pois a escola de culpada passou agora a escola ocupada. Os estudantes de São Paulo iniciaram as ocupações. Conseguiram fazer com que o governo Alkmin contornasse o problema, tornando a sua reorganização escolar não mais como uma política explícita, mas uma política que se vai implantando com fechamento de turmas a cada novo período de matrícula, até que as escolas que deveriam fechar fechem-se a si mesmas… E São Paulo vai dando os dois exemplos contraditários: o dos estudantes que mostram ser possível uma outra escola, que descobrem a insensatez dos regimes orçamentários e de seus controles, que têm recursos para comprar livors, mas não preveem rubricas para comprar armários para colocá-los; que compra computadores, mas não tem espaço nem técnicos para os instalarem nas escolas. São boas descobertas do desperdício do governo eficiente do tucanato. E o outro exemplo, dado diretamente pelo governo liderado por Alkmin: respondam a isso com subterfúgios, continuem a fechar escolas, deixem os computadores nas caixas, gastem em livros mas não os coloquem à disposição ds estudantes e como os estudantes estão mais atentos do que espera este governo, vamos fazr uma reforma curricular e retirar do currículo as discipinas mais ameaçadoras: História e Geografia!!!!

Em outros estados da federaçao, em que ocupações aconteceram e vão acontecendo, os estudantes descobriram o que descobriram os paulistas. E os governos estaduais responderam segundo o modelo inspirado pela política educacional mais tacanha já posta em execução no país, aquela saudada pelos áulicos da imprensa como adequada, necessária e, principalmente, sem gastos de recursos públicos. Um projeto de sucateamento até que a gestão externa se torne imperiosa, uma solução mágica que já sabemos pela experiência norte-americana que não dá certo. Mas como se sabe, tudo o que é obsoleto nos EEUU, é bom para as ideologias que se submetem a seus comandos. E são os que são contra isso que chamam de ideologias alienígenas (esta eu recuperei dos tempos da ditadura dura, aquela que o governo da União pretende implantar, mas desta feita conduzida por civis e policiais e juízes).

Pois agora temos uma escola culpada que está sendo ocupada. Até o MEC foi ocupado! Parece que realmente os governos mais populares dos últimos anos conseguiram mais do que uma vitória de inclusão social; conseguiram uma juventude que começa a mostrar as garras e que não está disposta a simplesmente comer o que lhes oferece uma elite egoista, reacionária e tacanha, a tal “escola sem partido” que pretende ser uma escola em que a realidade social brasileira não pode ser tematizada, porque necessariamente entra para dentro das salas de aulas através de seus alunos e de suas procedências. Ou pensam os senhores deputados da bancada da Bíblia que os estudantes são sem procedência, cegos e incapazes de perceber o que estão vivendo em casa, no bairro e nas ruas de suas cidades? Que não sabem o que é um pai ou uma mãe desempregada? Que não sabem o que é não ter comida, acesso aos bens comuns e espaço próprio para viverem mesmo dentro de casa?

Talvez o futuro, não o futuro breve, mas o futuro mais largo, venha a nos surpreender! Apostemos nos estudantes. Apostemos nas ocupações. Tudo há de começar da base e da juventude, um período de generosidade e de horizontes e memórias de futuros possíveis. 

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.