Crônica de uma morte anunciada

Tomo o título de uma novela de Gabriel García Marquez para comentar a decisão do Senado que deu prosseguimento ao impeachment, porque também esta decisão era algo já anunciado. Arquitetado desde os resultados das eleições de 2002, o afastamento de Dilma apenas é o coroamento do previsto. A direita brasileira não se conformou com este levantar de cabeça de uma população a que se habituara a comandar praticamente sem sobressaltos. Jango foi um destes sobressaltos na história. Getúlio um sobressalto menor. Mas o que pejorativamente chamam de lulismo, este foi longe demais. Conseguiu sobreviver à primeira estocada do mensalão. Aprendeu a lição e comprou governabilidade. Sobreviveu. E houve um retrocesso da direita, que começou a cozinhar em banho-maria o momento oportuno de voltar ao ataque.

Mas depois de equipar e modernizar a Polícia Federal, depois de permitir uma atuação independente do ministério público, tornou-se definitivamente indesejável mesmo garantidas as benesses necessárias a uma maioria de ocasião, de compra e venda. Depois vieram os incentivos a uma melhor preparação da magistratura federal, e os “novos juízes” foram ser treinados nos EEUU. Tudo corria bem até que os interesses geopolíticos do império se sobrepuseram a tudo. Era demais um quintal independente, movido a petróleo. Como era demais para o pensamento conservador brasileira um povo que já não tinha fome e erguia a cabeça exigindo salários.

Então aconteceu o inevitável: as três instituições aparelhadas pelos governos petistas e livres para cumprirem sua missão, foram incensadas pela mídia comprometida com o pensamento conservador. Incensados e insensatos, uniram-se todos e começaram juntos a caça demolidora. Agora já não era necessário cozinhar em banho-maria. Foram direto para a panela de pressão. O cozimento foi rápido pois se uniram sob a mesma bandeira e para a mesma ação os incensados, a média e os agrupamentos todos da elite de diretia e conservadora. A morte anunciada já estava próxima. Era somente necessário dar algum arremedo jurídico.

Então sob pressão até Augusto Nardes, o ilustíssimo jurista, pôs a funcionar o cérebro e tomou como empréstimo o atraso de pagamentos a bancos oficiais (que no fundo pertencem ao mesmo tesouro, o patrimônio nacional). Estava criada a “pedalada fiscal”. Dois juristas e uma jurista possuída por alguma divindade pedem o impeachment. Eduardo Cunha mente e abre-se um processo contra ele. E ele perde os votos do PT na Comissão de Ética da Câmara. O suficiente para ele aceitar o pedido dos juristas. Abre-se o processo jurídico e constitucional do impedimento da presidente da Republica. Tudo bem costurado.

Havia apenas um afoito Aécio Neves que, tendo perdido as eleições, patrocinara o pedido de cassação da chapa vencedora no STF. O ministro Gilmar Mentes é o relator. Era uma garantia: se o crime não previsto em lei não pegasse, eis que havia outra solução no horizonte.

Pois o crime pegou! Embora os técnicos convocados pelo Senado para analisarem o processo tenham concluído que não houve ação comissiva, e embora dentro do ministério público se defendeu a tese de que não havia crime e embora um juiz federal tenha aceitado a tese, o Senado em sua sabedoria considerou crime o que juridicamente não era tipificado como crime. Acontece que o novo princípio jurídico que presidirá o futuro da nação é de que o acordado vale mais do que o legislado.  E como estava acordado que o afastamento teria que ocorrer, então o Senado foi a primeira instituição a seguir o novo princípio de sobreposição da vontade sobre o ordenamento jurídico existente. Existente? Bom, não precisará mais existir porque agora teremos mais um direito previamente garantido, mas acordos de ocasião.

E o acordo de ocasião, que fez retornar ao rebanho aqueles que haviam se deixado levar pela governabilidade da compra e venda, produziu esta maioria parlamentar que aprova como crime o que querem que crime seja.

Portanto, a votação do Senado desta última e longa sessão era coisa já acertada, já anunciada. Aliás, o desfecho também já está anunciado. Mas as formalidades devem ser cumpridas para que se cumpra o acordo com “licitude formal” sem mérito. Não há porque julgar mérito, pois o mérito já veio nas conversas de pé de ouvido no Planalto que, de plantão, foi cozinhando a pressão e a distribuição das benesses pela válvula de escape. Tudo segundo o novo figurino dos acordos.

Por isso, o aprovado não é notícia. É confirmação. A notícia política mesmo é o adiamento da apreciação do pedido de cassação do mandado do deputado federal afastado pelo STF, Eduardo Cunha. Toda a equipe trabalhou para convencer a extrema direita brasileira, agrupada no PSDB, no PPS e no PSB, para adiar esta apreciação apenas para depois de cumpridas as formalidades rituais do afastamento da presidente eleita com mais de 54 milhões de votos. O Planalto teme a reação de Eduardo Cunha.

Isso leva a perguntar: que poder tem Eduardo Cunha, um deputado afastado que já renunciou à presidência da Câmara? Por que Temer o teme? Que influência poderia vir a ter Eduardo Cunha sobre o acordo já fechado do impeachment? O que se teme? Que Temer se torne delator? Que os companheiros da força-tarefa escutem denúncias que não terão consequência alguma? Que vaze algo? Mas tudo está devidamente arranjado: o vazamento não irá a público; os procuradores, delegados e juiz da Lava Jato somente se interessam por denúncias adequadas, isto é, aquelas que atingem esta camarilha que se uniu ao povo e lhes deu respeito e direito de comer!!! Então, por que este temor de Temer?

Temer, não há o que temer. Nada tremerá depois que tombar Eduardo Cunha. Ele será a única vítima das hostes do pensamento conservador neste processo todo. E por mais quinhentos anos está a elite garantida nas benesses e no uso do Estado em benefício próprio. Voltaremos a ver o filme que sempre vimos na história brasileira. Os sobressaltos no século passado foram tão poucos: um Getúlio e sua CLT, um Jango e seu discurso. E um partido e uma liderança popular que agora se esvaem definitivamente. 

Temer, não tema Eduardo Cunha. Não tema a história, que ela é escrita pelos vencedores.

 

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.