Não, eu não vou falar do ataque terrorista em Londres. Sobre isso falará toda a imprensa escrita e falada. Fará seus comentários, condenará o terrorismo, como devemos condenar.
Minha chamada aos covardes, filhos da *** somente veio três dias depois: esperei me acalmar, esperei a raiva baixar, esperei o desespero calar durante este tempo todo. Por isso estou calmo e sereno ao chama-los de covardes, o mínimo que neste momento de serenidade posso dizer!
Vivia Waldomiro Costa Pereira em seu sítio, no assentamento 17 de abril, em Eldorado de Carajás. O nome do assentamento lembra o massacre de Eldorado, quando 19 trabalhadores rurais foram assassinados pela Polícia Militar do Pará. No sábado, dia 18 de março, foi agredido por criminosos certamente a mando de latifundiários. Sobreviveu e foi levado para o Hospital de Parauapebas. Submetido à cirurgia, recuperava-se na UTI do hospital.
Pois cinco assassinos invadiram o hospital, renderam seus seguranças e dirigiram-se à UTI e assassinaram Waldomiro Costa Pereira. Ele já tinha exercido funções de direção do MST, mas havia se afastado. Continuava líder, obviamente, pois liderança não depende de cargo de direção.
Ele foi contratado também como assessor de gabinete da Prefeitura de Parauapebas, o que desvela seu trabalho político.
Matar alguém que está em recuperação, dentro de uma UTI hospitalar, é um crime hediondo. Há vídeos da segurança do hospital, disponíveis. O homem que vem à frente, no vídeo, está de cara à vista, identificável. Restará saber se a comprometida Polícia do Pará tem interesses em identificar os criminosos. Provavelmente armará um escandalosamente falso processo como fizeram quando do massacre de Eldorado de Carajás, acusando 155 envolvidos sem fazer qualquer perícia nas armas e com isso ludibriando a lei, pois está prevê que por crimes contra a vida não se pode condenar um grupo, mas indivíduos… Foi necessário, então, intervenção federal para que dois dos criminosos fossem condenados! Haverá num futuro longínquo condenação dos assassinos de 20 de março? Duvido. Cada vez mais crimes contra trabalhadores rurais são arquivados por falta de investigação séria.
Sobre este ato terrorista (que isso é terrorismo contra os defensores de uma reforma agrária necessária à sobrevivência de parte da população brasileira) não teve grande e continuada repercussão, nem mesmo na mídia alternativa. Porque o crime contra militantes do MST já está naturalizado na sociedade brasileira. Apenas sofrem os mais próximos. O restante da população fica sem saber de nada, ou pior ainda, são ideologizados considerando o Movimento algo demoníaco. Há mais de 100 anos até os EEUU fizeram uma reforma agrária!!!
A covardia dos assassinos, a covardia dos mandantes, a covardia do sistema, a covardia da estrutura agrária: tudo naturalizado como bom, como “normal”. Aliás, quando fiz uma observação para amigos alemães (eram crianças na época de Hitler) como é que a população não percebeu o que estava acontecendo, recebi uma resposta que me deixou calado: vocês brasileiros não percebem os miseráveis que vivem nas ruas de suas cidades! Ora, vocês naturalizaram o convívio com a miséria. Os alemães de então naturalizaram como mudança de endereço o desaparecimento de vizinhos.
Não podemos naturalizar assassinatos de trabalhadores. Não podemos naturalizar a miséria. Queiram ou não os covardes mandantes e assassinos de Waldomiro Costa Pereira, outras lideranças emergirão; outras lideranças continuarão a luta, aparentemente inglória, de construir um mundo mais equânime, mais justo e mais humano.
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

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