A política social de ações afirmativas na área do ensino superior, resumida na expressão “cotas” é talvez a que maior importante que se implantou no país nos últimos anos porque poderá alterar a fisionomia futura da sociedade brasileira. Os governos Lula e Dilma não fizeram só isso: duplicaram o número de universidades federais e aumentaram vagas, através do programa REUNI, em todas as universidades públicas federais. Criaram o PROUNI, aplaudido pelas universidades privadas, mas ainda assim permitiu que muitos estudantes contassem com estas bolsas para realizar seu curso superior.
As “cotas”, no entanto, foram as que mais chamaram reação, tanto da classe média (alta e baixa) que se considerava, por direito divino, que as vagas das universidades eram para seus filhos, quanto de “intelectuais universitários” que defendem dois pontos de vista interligados: cabe à universidade a formação das elites do país; deixar entrar nas universidades um povo sem tradição universitária é abrir o campo para a redução da qualidade da formação, da ciência aqui produzida e da tecnologia que aqui se desenvolve. Dois modos de expor seus preconceitos de classe.
Quando a UnB, a primeira universidade a adotar políticas de inclusão no seu corpo discente, reservou vagas aos menos aquinhoados, estes escondiam o fato de serem cotistas. Afinal nos banheiros da universidade havia ameaça clara de morte aos cotistas! Na sala de aula, a segregação própria de classe ocorria automaticamente. Era difícil para um cotista ser “invisível”. Sobreviveram. Alguns têm mestrado e doutorado (até nos EEUU, pasme Sr. José Goldemberg, ex-reitor da USP!). Há entre ex-cotista até professores universitários. E podem estar sendo financiados por órgãos de fomento como aquele que o neoliberal confesso Goldemberg dirige, a FAPESP.
A estratégia da direita está tão repetida que começa a cansar. Primeiro uma nota na imprensa (nota, notícia ou reportagem); depois uma reação de algum figurão qualquer; depois uma proposta “parlamentar” ou do governo de ocasião para atender ao ataque iniciado primeiro através da imprensa. É assim que eles pensam que criam “clima” para terem o apoio a tudo que querem. Ora, até Joaquim Barbosa em velhos tempos respondeu a Gilmar Mentes que estar nas páginas dos jornais não era a mesma coisa que estar nas ruas, auscultar o pensamento da nação!
Mas é assim que a estratégia foi montada; é assim que tem funcionado. Tomemos apenas um exemplo bem recente: a imprensa publica uma nota de vazamento de que a delação de Léo Pinheiro, o principal executivo da OAS, envolveria escândalos em São Paulo, e traria nomes como José Serra e Geraldo Alkmin. Bastou. A VEJA entrou no jogo e fez uma reportagem sobre uma denúncia vazia contra Dias Toffoli, supostamente vazada da Lava Jato. A denúncia não se sustentava de maneira alguma, mas valeu uma capa da VEJA e uma grande reportagem sobre o assunto.
No dia seguinte, Gilmar Mentes grita aos quatro ventos que “é preciso colocar freios na Lava Jato!”. Os ingênuos acreditaram que defendia o acólito Dias Toffoli em função da reportagem da VEJA (desconfio que o ministro conhecia e até concordava com seus termos, pois não há notícia de que esteja processando a bem querida revista!). Não era isso que queria. Defendia Serra, Alkmin e o PSDB de modo geral. Rodrigo Janot realiza o que lhe cabe no script: defende os procuradores como não “vazadores”. O bate-boca para a patuleia está pronto. Enquanto isso e alegando precisamente isso, Janot suspende a delação premiada de Léo Pinheiro. Afinal, ele tinha o que dizer que ninguém quer ouvir. Ponto. Desceu o pano e nada mais se fala sobre isso!!! Léo Pinheiro que amargue as consequências de seu ato irrefletido, comprometendo a quem não se pode comprometer.
Agora temos mais uma ação em andamento. A imprensa – Estadão – publica longa reportagem sobre o fato de que as vagas das universidades federais destinadas a cotistas – negros, pardos, índios e estudantes de escolas públicas – ultrapassa o número de vagas nas universidades federais postas à disposição dos pobres concorrentes que se esfalfam para conseguir entrar numa universidade pública, frequentando as melhores escolas do ensino fundamental e médio e pagando os mais caros cursinhos! Coitados: agora com tão poucas vagas a sua disposição. É de chorar! Que dó!
Por não explicitar as formas de ingresso dos cotistas, a reportagem dá a entender que basta ser negro, pardo, índio ou só ter estudado em escolas públicas e basta: querendo, estão aceitos na universidade pública! Como se não houvesse seleção, provas, pontos, ENEM, etc. etc.
Dão a entender que é para os cotistas uma questão de quererem entrar na universidade e tudo está resolvido! Não precisa esforço. Não precisa ralar e estudar. A reportagem precisa preparar o campo para o ataque. Ele virá. Já, já um figurão de carteirinha assinada no neoliberalismo tacanho e tupininquim, como o ex-reitor da USP José Goldemberg, diz sem base em qualquer dado, qualquer argumento, que o sistema de cotas prejudica o desenvolvimento da ciência e da tecnologia.
Os imparciais “intelectuais universitários” do neoliberalismo não precisam de argumentos: o que afirmam é verdade, ponto final. Mesmo sabendo que as notas obtidas pelo corpo discente das universidades não tiveram, em média, grande variação com a presença de cotistas; mesmo sabendo que a diversidade no interior da universidade é enriquecedora de seus pontos de vista, todos se unem contra as cotas porque baixam a qualidade. Repito: eles têm dois pontos de vista irremovíveis: a universidade deve formar a elite, e na elite não cabe a presença de gente “sem tradição”, isto é, sem dinheiro.
Publicada a reportagem, agora esperemos o passo seguinte do script! Provavelmente Mendonça Filho virá a público explicar, como explicou tim-tim-por-tim-tim o diretor do Grupo Riachuelo de que é preciso pensar no capital porque chega de pensar no trabalho, para dizer que é preciso colocar as coisas dentro de seus eixos, evitando que as universidades públicas tenham um decréscimo em sua qualidade. E a falta de qualidade é a presença de cotista, bem disse o Sr. Dr. José. Goldemberg! O circo estará armado! E segundo eles pensam, a opinião púbica, isto é, a publicada na grande imprensa, está pronta para acabar com esta bobagem de ações “indenizatórias”. O cara é preto? Azar é dele. O cara é pardo? Quem mandou ser… O cara é índio? Que volte para a floresta. O cara é pobre? Culpa dele que não trabalha e dos pais que são preguiçosos que levantam às cinco horas da matina, enfrentam o transporte público miserável, trabalham oito horas e quarenta e cinco minutos, demoram mais duas horas para chegarem em casa! Que preguiçosos! Merecem que seus filhos se arrebentem e os substituam porque afinal a fábrica do “papai” ou a loja da “mamãe” precisam destes preguiçosos para funcionar.
“O que “eu” quero de volta é minha vaga na universidade, um direito divino que estes petistas estão querendo me tirar!” Coxinha raciocina assim. E eles serão a elite com que quer contar o Sr. José Goldemberg.
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

Comentários