A imprensa brasileira, como se sabe, nunca foi tão criticada por seus colegas na imprensa internacional como nos dias que correm, os dias de comando de Eduardo Cunha e do traíra Michel Temer, o Temeroso.
Pois nestes tempos, apesar das críticas do exterior – não venham dizer que a imprensa internacional é petista! – a imprensa brasileira continua a mesma. Tomemos um exemplo de O Estado de S. Paulo, de domingo, e leiamos o lead de matéria que estaria nas páginas de Política/pg. A4:
Reformas de Michel Temer vão esperar ‘clima’ político
Um eventual governo de Michel Temer deve propor reformas previdenciária e trabalhista somente depois que for criado um ambiente político em que elas tenham chance de aprovação. Temer tem trabalhado para consolidar uma base sindical que lhe dê apoios, dialogado com empresários, com o Supremo Tribunal Federal, com o Congresso e até com o PT. (POLÍTICA/PÁG.A4)
Que você esperaria ao ler a matéria na página indicada? Que se falasse dos diálogos que vem mantendo o Michel Temer, o Temeroso, para construir o que a imprensa quer que seu governo seja: um governo de conciliação nacional, comandado por um sujeito que sequer conseguiu conciliar as diferentes correntes do partido fisiológico que dirige. Ao que dá a entender o lead da matéria, esta conciliação incluiria todos os partidos (até o PT), os trabalhadores através de seus sindicatos, os empresários (através de seus patos da FIESP, o judiciário, incluindo o Dr. Sérgio Moro que em dezembro quer encerrar a Lava Jato.
Pois li toda a página A4 e não encontrei em nenhuma linha de conciliação obtida pelo nosso futuro, para infelicidade na nação, presidente em exercício. Ao contrário, até Paulino da Força diz segundo palavras textuais da reportagem: “Não vai ter reforma trabalhista nenhuma”. Parece que ele trabalha para obter um amplo apoio entre sindicalistas (Fora, União Geraldo de Trabalhadores (UGT), Central dos Sindicatos Brasileira (CSB) e Nova Central Sindical de Trabalhadores (NCST) – cujas siglas e nomes já revelam que surgem não da conciliação, mas da divisão. Em nenhum momento qualquer referência ao PT como um partido com quem o atual vice, que já compõe seu governo previsível, tenha tido diálogo!!!
O que se quer, ao mentir tão desrespeitosamente no lead da primeira página? Fazer passar a imagem de que Michel Temer é homem do diálogo, home da conciliação, homem confiável. E ao mesmo tempo, matando dois coelhos com uma só cajadada, fazer crer que o PT que está na frente do movimento contra o impeachment, já está traindo a causa que defende publicamente! É muita falta de vergonha do jornalão brasileiro. Neste caso, já que defendem tanto a eficiência, a competência, deveria haver demissão não do repórter mas do autor do lead, por mentiroso, a não ser que a direção e editoria do jornal quisessem que isso fosse dito na primeira página de seu jornalão!
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

Comentários